domingo, dezembro 29, 2013

O que é educação?



Aristóteles de Estagira 






Amauri Nolasco Sanches Junior


Os gregos antigos entendiam a educação como paideia ou, “criação de meninos”. Era a educação familiar e moral – a moralidade nesse caso não se refere em certo ou errado, mas como se comportar diante da sociedade e seus cidadãos – e os bons modos de respeito e civilidade. Foi na mesma Grécia que o problema da educação se fez presente com questionamentos dos maiores pensadores como Socrates, Platão, Isócrates, os sofistas e finalmente, Aristóteles. Dois termos nesse processo se fizeram importantes, aretê que era a virtude e a civilidade e a eudaimonia que é a felicidade. Mas essa eudaimonia só seria alcançada com o conhecimento e com a sabedoria, a bondade plena em não fazer com o outro o que não gostariamos que nos fizessem. Aristóteles irá dizer que a natureza humana era conhecer e esse conhecimento só era alcançado com a prática, pois não adianta levar o conhecimente e a virtude sem ao menos prática-lo.

Isso foi um marco na civilização ocidental porque até então, nenhuma civilização mencionou essa preocupação com os meninos que herdariam as diversas posições. Claro que nesta época, não havia educação para meninas porque quem fazia todo escopo politico-cultural era o homem, a mulher era provedora da casa e cuidava dos filhos. Por isso nada sabemos de filosofas, matematicas e etc, porque era uma sociedade partriarcal, mas mesmo assim, a mulher era educada em casa com os pricipios da época porque era exigencia até mesmo do Estado. Talvez o mais estranho é que a sociedade espartana com toda sua cultura militarista e guerreira tenha respeitado muito mais suas mulheres e mesmo elas não sendo soldados, elas eram treinadas para defender suas casas e sua prole, sendo seu lema “as mulheres espartanas dão a luz a homens de verdade” quando algum mensageiro indagava elas estarem no meio. Os espartanos tinham seu agogé onde os meninos eram educados severamente – embora muito superficialmente, o filme 300 mostra essa educação como um meio de criar soldados fortes, patriotas e que buscam honra e glória – onde tinham meninos que até morriam em seus treinamento. Lembramos que olhamos sempre na época e no momento de cada civilização, naquele momento não se poderia ter homens fracos ou soldados fracos, doentes e deformados, assim, Esparta ficaria sem suas defesas. Voltarei a esse tema em outro texto.

Talvez os gregos tenham sido influenciados pelos egipcios onde tinham um relaionamento comercial muito intenso. Mas sua força tambem por muito tempo, dominou o mar mediterraneo e o pensamento ocidental e toda sua filosofia e ética (Ethos), passaram no crivo da lógica e da razão (logos) grega. Quem nunca estudou o Teorema de Pitagoras? Quem nunca ouviu algo sobre Euclides? Nem vou dizer que o pensamento cientifico e educacional é fruto de Socrates, Platão e Aristóteles. Na verdade, a lógica começa com o slogismo de Aristóteles, muito famoso por sinal, que dizia: “O homem é racional, Sócrates é homem, então, Sócrates é racional”, parece simples, pois não é e nem era na época tão simples. Ele colocava que se o homem é um ser racional, Sócrates por ser um homem, ele pertencia a classe dos seres racionais e até hoje temos essa separação como a pedra é um mineral, o leão é um animal, um cacto é um vegetal e por ai vai. Na lógica ou algo é verdadeiro ou algo é falso, não tem meio falso ou meio verdadeiro e isso, Aristóteles inova além, claro, de dizer que todo homem tem o “desejo” de saber. Esse desejo do saber é a busca cada vez mais da eudaimonia porque com o saber, nós podemos enxergar muito além do que nos é mostrado e esse deveria ser o papel da educação.

Educação, na verdade do termo, vem do latim educare que seria para os romanos uma maneira de mostrar para a criança a realidade. Como os gregos – dizem alguns historiadores que os romanos são gregos de Troia fugidos e há alguns indicios e teorias que eles tinham uma espada que provavam isso e seria do rei Priamo, mas é assunto para outro post futuro – os romanos gostavam de ensinar como um cidadão romano deveria se comportar como cidadão. O que os romanos tinham como realidadade era o vasto império que todo cidadão livre, deveria de saber para ser um homem informado e saber do destino do império. Sempre lembrando que até a revolução francesa os pobres não tinham acesso a educação. Então, essa “realidade” eram previlégios dos patricios que eram uma especie de classe média romana, porque deles dependiam o apoio ou a queda de um imperador e para um apoio, esses cidadãos deveriam ser instruidos. Era um ato civil que nada tem a ver com um ato de alienação, mas um ato de escolha em ser um cidadão do império instruido e ser um cidadão do império que será escravo de atos politicos que não concorda. Além do mais, um romano tinha orgulho de ser romano e não era “sacrificio” estudar o que era a matéria da época – muitas vezes as mesmas que os gregos impunham em sua paideia. Enquanto os populares se apegavam a religião e aos deuses estrangeiros – lembrando sempre que nesse tempo a maioria era inculta e só se interessavam aos cultos aos deuses e na maioria dos casos, aos shows de gradiadores que se chamava de “pane in circus” porque nesses eventos se distribuia pães – os cultos se interessavam a filosofia e essa flosofia era o estoicismo, que era a ascese civica (era mais ou menos, um culto ao civinismo romano e a ordem civica) e a politica como algo importante, o epicurismo, era a busca da ataraxia (tranquilidade da alma) e da aponia (ausencia da dor). O epicurismo é a busca da tranquilidade pela ausencia da dor – essa “dor” para Epicuro era o sofrimento e para o sofrimento não acontecer era importante a busca do prazer, mas o prazer moderado porque se comer demais, por exemplo, você sofrera a mesma coisa – pela tranquilidade da alma que hoje chamamos de calma, tanto é, que a arte retórica era levada como um argumento tranquilo para passar convencimento e convencer seu opositor ao convencimento. A arché (origem) de todo discurso é o convencimento – o filósofo latino Sêneca era muito bom nisso – em ter o termo certo no momento certo diante de um discurso e isso que a tranquilidade da alma vai trazer para o cidadão culto romano. Isso vai até a Idade Média onde toda a cultura é destruida e até mesmo os nobres são presos pela crença doentia de uma igreja dominadora de todo o conhecimento até a chegada dos mouros que introduzem as obras gregas antigas e se estabelecem novamente a cultura grega. Fenômeno esse chamado de renascença.


Segundo Jeager em seu livro “Paidéia – A Formação de um Homem Grego” (edição da Martin Fontes), paideia era um conceito muito mais espiritual que mostrava o espirito grego na época. Se nesse tempo temos na China o confucionismo, na India o Dharma, na Grécia tinhamos a paideia como algo além do termo nos mostra como “formação de meninos”. Porque nessa formação era a formação de um espirito grego que surgia como ponto cuminante nos Balcãs como cultura dominante, uma cultura que evoluiu graças a entrada da escrita fenicia, onde se forma toda a gama de termos até hoje usada como na medicina e por muito tempo, usada para até difundir culturas e impérios. Mas com toda aquela dominação da igreja cristã e toda aquele “sufocamento” das verdades contidas no afã das novas descobertas, se criou uma separação entre o homem enquanto ser biológico (res estensa) com o ser que acredita que há algo além dos nossos sentidos, o espirito da descoberta de um mundo que pode ser pesquisado. Ora, o que tem a ver o mundo ser descoberto pelos avanços cientificos e ter um ponto espiritual como teve os gregos e romanos e muito além, teve todas as sociedades humanas? A Renascença erra em colocar o homem como um ser mecanico e o Iluminismo dá o aval disso, um ser que não sente, que apenas aprende sua cultura mecanicamente. Isso começa com a diturpação do principio cartesiano (de René Descartes cuja o nome em latim é Renatus Cartesius) onde ele resgata o principio platônico e coloca a duvida como um método único para a certeza. Seu único erro – o mais grave por sinal – foi fazer do ser humano um ser mecanico sem a menor condição de sentir. Ora, se somos seres que temos um corpo biológico (res extensa) e temos a racionalidade e a percepção das coisas (res cogitans), tambem temos sentimentos e desejos que os antigos já sabiam. O lado espiritual – não de forma religiosa como vimos nesse momento como algo irreal – humano, contem todos nossos desejos e sentimentos que podemos expressar ao longo de nossas vidas. Não é só perceber e dividar, é perceber e perguntar o “porque” daquilo, é entender como aquilo é ou como aquele processo funciona. Talvez foi isso que Descartes demonstrou para os ceticos e os póprios céticos se apossaram de sua filosofia – como acontece com Nicolau Maquiavel na ordem politica e outros que tiveram suas filosofias detubardas para atender interesses – porque quando ele diz: “eu penso, eu logo existo”, ele quis dizer que a única certeza que tenho é o meu pensamento, é o meu existir. Posso ver uma nuvem e duvidar que me disseram ou me ensinaram que as nuvens são feitas de algodão, com isso, muitas pesquisas foram feitas e se concluiu que as nuvens são vapores d´água. Eu aprendi porque duvidei e pesquisei, também me foi ensinado assim. Mas, segundo o método cartesiano, eu tambem posso duvidar que a nuvem é um vapor d´água e não ser aquilo que me ensinaram na escola, pode ser que a nuvem seja de um material sutil, pode ser particulas da água tão sutis que não podemos detectar.

Acontece que Platão uns mil e quihentos anos antes – no tempo de Descartes era mais ou menos o tempo dos escritos do filosofo anteniense – tinha escrito que nossos sentidos podem não mostrar a realidade, porque podemos estar vendo “sombras” e que somente com o conhecimento – daí vem o termo Iluminismo que seu maior filosofo é Immanuel Kant – poderemos sair dessas correntes. As “sombras” são a realidade que nos ensinam que muitas vezes não é a realidade e as “correntes” são os conceitos e crenças ensinadas para nos prender em uma realidade dominadora, isso vimos muito quando pessoas ficam “cegas” por crenças infundadas e conceitos que só interessam aos partidos poiticos que querem essa dominação. É provavel, que esse “Mito da Caverna” muito famoso de Platão que está no sétimo livro da obra A Republica, seja um protesto e um alerta pela morte do seu mestre Sócrates que foi, e isso é evidente, uma vingança por ele desmascarar os sábios que não eram sábios e por ele ter pertencido a assembleia dos 13 tiranos. Então, além de alertar que não somos libertos, ainda nos coloca em duvida da realidade que nos é ensinada e que nada tem a ver com “bondade” ou “maldade” e sim tem a ver com “dominação” pelos sentidos e pelas ideias. Descartes vendo o Renascimento buscar toda a cultura greco-romana e resgatar obras de arte (estética), obras literárias (poética) e filosófica (sophia), viu que estavam duvidando somente das verdades cristãs que a igreja impunha e disse se temos que duvidar, que duvidemos de verdade, duvidemos de tudo. Também Descartes estava travando uma batalha com os céticos, então disse que sob o crivo da duvida poderia provar a existencia da Consciencia Universal. Eu penso e percebo a minha existencia e é a única coisa que tenho certeza, pois o resto pode não existir e pode existir não da forma que nos foi ensinada, pode existir oculta aos nossos sentidos e não percebemos. A duvida é o método mais eficaz para se aprender pesquisando, o aprender investigando e não com formas mecânicas como depois com a diturpação da filosofia cartesiana e a filosofia de outros, nos impuseram. Poderiamos ser diferentes com o duvidar cartesiano (verdadeiro) e o ousar kantiano em forma de educar como os romanos e antes deles os gregos, poderiam mostrar a realidade e não a realidade ilusoria que somos fadados a engolir. A realidade que somos seres que sentimos, desejamos, queremos e buscamos como peça principal de uma nação e de uma sociedade.

Dai temos que voltar em Aristóteles onde nós somos animais politicos (zoon politikon) por sermos seres com a necesidade de sermos sociáveis(koinonia) por causa de nossas carências, assim, ele dará o exemplo da união do homem e da mulher que há necessidade da reprodução – ainda sim analisemos o tempo onde Aristóteles viveu para entender o seu pensamento – e assim, satisfazer essa carência. Mas que carencias são essas? O homem é um animal social que procura no outro o que te falta – não interessa se isso moralmente é errado, é a única certeza biologica que temos da especie homo sapiens – e essas carecias são os desejos que vimos no mundo e dentro do mundo. A realidade é a satisfação desses desejos que há um certo equilibrio – esse equilibrio grego é muito importante como uma harmonia que era o intuito principal do cidadão da polis – porque a filosofia aristotelica visava a vida prática (bios pratiktikós), a vida produtiva (bios politikos) e a vida teórica (bios theoretikós) e isso que se fez – até novos métodos de repente – construir todo o alicerce da cultura do pensamento ocidental. Assim, se o homem por natureza (definição onde o homem tem a necessidade de saber, do conhecimento, em Aristóteles isso é quase algo inato dentro do ser humano) então teriamos que retomar a verdadeira condção do saber pela necessidade desse saber e pela procura por ele. Saber não é “forçar” a aprender, ninguém aprende “forçando” o aluno a ter aquele conhecimento e sim, resgatar esse saber estmulando a necesdade inata do ser humano e isso é quase uma verdade irrevogavel. Quem leu livros porque “tem que” ler aqueles livros sabem disso, agora se você sugere e estimula o aluno a ler esses livros por curiosidade e tempo – o Sertão de Euclides da Cunha é dificil, quase ilegivel, imagina força uma pessoa a ler aquilo é tomar água de arroz e ainda dá uma semana, é quase enviar o indivíduo a forca – porque o tempo faz a pessoa aos poucos se interessar e estimular essa curiosidade, talvez, contando um pouco a história da guerra de Canudos numa linguagem acessivel e atual.

O método atual ficou muito defasado, ficou muito aquela “história” de treinamento para o jovem enfrentar o mercado de trabalho e isso é fruto da romantica revolução burguesa chamada de Revolução Francesa – onde se consolida com o impérios dos Bonaparte – onde a burguesia tinha que tirar a ignorancia deles (porque a maioria dos burgueses não sabiam nem escrever seus nomes) e tirar a massa da condição de seres neoliticos (literalmente). E após isso o automaticismo de Henry Ford, ganhou força a suplemacia dos ganhos sem se importar com e como e o que está por trás desses ganhos, então, se cria uma educação automatizada para o povo não pensar. Nem pensar e muito menos – isso Freud denuncia como um “mal” da humanidade – sentir como desejos inatos dentro do corpo e a vontade que vem lá dentro da alma. Criamos algo automatizado que ficasse a merce do material e esquecemos do espiritual – como sentimentos e vontades que nos regem espiritualmente – que nos faça sempre procurar a felicidade (eudaimonia) e a vontade de ir além do que se limitamos a estar. Quando Aristóteles disse que o homem por natureza procura o saber, ele procura esse saber para se embrenhar a felicidade – ao contrario que muitos pensam que quando temos o conhecimento e sofremos com as supostas “verdades” do mundo (civilização), o saber (sophia) faz que enchergamos a verdade e como diz Yashua “conheceis a verdade e ela vos libertarás” - porque ao saber temos a “porta aberta” para o conhecimento e o desenvolvimento intelectual e espiritual. Esquecemos o real significado da paideia, que era muito além do que criar meninos, e damos ao jovens uma criação de “automátos” que não pensam e não sentem. Enquanto no mundo grego espiritualizamos o ethos, no mundo pós moderno, fazemos de nossa ética algo automático, algo que precisamos como “tutores” sociais intimos. A essência do ethos- seu significado é o costume e a base social por tradição – é o que nossos atepassados descobriram com erros e acertaram com essas tradições que remontam milhares de anos de esperiencia.

Quando fazemos um trabalho acadêmico – na verdade acadêmico vem da Academia platônica, que tenho certeza, Platão choraria em ver o que fizeram com sua filosofia – temos que ter um rigor cientifico como norma dos órgãos responsaveis (ou irresponsaveis), não deixando o aluno deixar algo do que pensa, é a cultura do “ctrl-c” e “ctrl-v” que criam engenheiros não criativos, médicos que não sabem perceber as doenças, profissionais que só sabem seguir as normas (não mais a intuição). Prédios caem, pessoas morrem por remedios errados e toda a gama de coisas acontecem porque ainda estamos atrelados em “normas” e ensinamos nas escolas e nas universidades, pessoas automáizadas que não sabem usar a intuição e não fazem o que realmente gostam. Querem status e querem dinheiro, só. Lógico que não há nada de errado em ter bens que Aristóteles chamará de ousia – esse termo Aristóteles não vê problema em ter bens, só tem que haver moderação – que é ter bens através de seus conhecimentos, porque o conheimento pode nos mostrar um oficio, um trabalho. Não esses “trabalhos” que eles pedem nos cursos, que pensam estarem ensinando, mas o trabalho que nós temos como oficio aprendido. Tanto é, que o filósofo de Estagira, disse que era muito melhor treinar as pessoas com deficiência do que sustenta-las a vida toda – é uma coisa que os governos deveriam seguir um pouco – porque todos deveriam procurar o conhecimento que lhe é natural.


Esquecemos mesmo na essencia da paideia, esquecemos do verdadeiro sentido de se educar e de ser educado, não como se fossemos maquinas, mas como se fossemos seres humanos. 

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