sexta-feira, junho 14, 2024

MAD MAX E O FIM DO CAPITALISMO


“é mais fácil imaginar o fim do mundo do que imaginar o fim do capitalismo”  

Fredric Jameson e Slavoj Zizek

 

Amauri Nolasco Sanches Júnior

 

A saga de George Miller intitulada Mad Max – em um mundo pós-apocalíptico com uma estética diesel punk – mostra como a frase que esta acima tem a ver com a discussão da questão entre a saga e a filosofia. Mas a origem do texto tem a ver com um vídeo do professor Felício Molinari no YouTube intitulado “A Filosofia por trás de Mad Max” – que, claro, tem muito pouca visualização – onde ele explica, na visão dele, sobre de um modo filosófico o modo de ver o cenário onde a saga acontece. De um modo bastante filosófico, concordo em alguns pontos (do petróleo e da água), outros eu não concordo (como a visão rasa da história como se não houvesse uma trama por trás do mundo diesel punk da saga).

Outro professor de filosofia, Vitor Lima, nos alertou de tomar cuidado com a questão nietzschiana de que tudo tem que ter uma “entre linha”. Como se qualquer obra tem que ter algo além do que é mostrada. Ora, indo nessa linha, poderemos dizer que a questão da saga tem a ver hora com um mundo entrando em colapso por causa da guerra fria (que há dentro dos primeiros filmes) e na sequência, poderíamos dizer que há uma subsequência que explora outras questões que se valem do mesmo cenário. Muitos dizem que é um cenário anarcocapitalista (desde a Cúpula do Trovão), onde há forte critica no modo que a humanidade tem como objeto da sua construção social o petróleo e depois a água. Porque se fomos bastante rigorosos, no primeiro filme poderia ser que há elementos anarcocapitalistas, mas temos que entender que o colapso de uma sociedade é a guerra. Dai entra tanto a filosofia streampunk como seus derivados.

A questão é: o que causou o colapso humano que Miller coloca no Mad Max2? A crise do petróleo que parou várias coisas importantes do capitalismo, como aviões (com as viagens dos executivos) a geração de energia, o transporte e a estabilidade política. Com o fim do petróleo, o transporte fica a deriva e não há transporte de alimento e bens, com isso vem a escassez e a fome. Os protestos geram cada vez mais, piquetes e revoluções que parariam as fabricas e os recursos públicos iriam mais para exércitos e policiais para estabilizarem as sociedades. Mas, como é mostrado no primeiro filme, mesmo com a segurança sendo privada, não seria o bastante para parar aqueles que querem roubar o combustível. Além disso, o primeiro filme não mostra bem uma sociedade pós-apocalíptica, mas em colapso que pode derivar numa cronologia mais rigorosa como pode ter acontecido antes da guerra nuclear.

Daí temos que refletir muito além do capitalismo, pois, com a guerra nuclear – onde boa parte da humanidade morre ou saem das cidades devastadas – e um mundo desértico e destruído, se passa a valer tudo para sobreviver. Poderemos ver nos filmes que, questões morais se esfacelam junto com a religião, que não é mencionada em nenhum momento da saga. Em um termo nietzschiano: o mundo passa a ser niilista. Ou seja, o que sobreviveram são pessoas animalizadas dentro de um mundo que ainda tem objetos tecnológicos e podem usar as estradas para saquear. Ou são soldados contaminados com a radiação e levados a loucura por traumas pós-guerra, como é mostrado tanto no segundo filme e o último (A Estrada da Fúria).

O terceiro, mesmo sendo do cenário da saga, nunca foi feito diante da questão da saga em si mesma. Miller diz em entrevista, que a ideia da Cúpula do Trovão sempre foi um outro protagonista, o que aconteceu foi pressão do estúdio. Mesmo assim, temos um cenário de um começo de uma sociedade comercial com energia gerada com bosta de porco, gerando metano. Por outro lado, tem jovens vivendo remotamente ao que parece, uma cachoeira, e que seus antepassados que caíram ali em um avião, teriam encontrado. A história que contam para Max: que houve um clarão e o avião tem que pousar porque tudo entrou em colapso e o piloto sai para buscar ajuda e eles pensam que Max é o piloto. Nessa passagem – que é retomada quando eles conseguem ir para a cidade e contam a mesma saga colocando a parte de Max – mostram como lendas e mitos poderiam ser criados para dar ao ser humano uma ponta de esperança.

Voltando ao segundo, Max segue sozinho depois que a sua família morre, mostrando um egoísmo e um niilismo grande. Colocando como um homem utilitarista quando espera que fugitivos capturados sobrevivessem, para porventura, ele trocar um deles por combustível para seu V8. Ele não tenta salvar a mulher de ser violentada e nem morta, pois, o que interessava para ele era só o combustível. E outras posições morais que podem ser vistas em Max, como uma pessoa apática com o mundo que levou seus amores e amigos. Que, poderemos ver no primeiro filme, não esperou morrer. O que nos resta perguntar: como sabe que morreram? Miller deixa essa lacuna que sempre pensei que ao se enganar, ele os encontraria ainda na saga.

O que me levou a escrever esse texto é a ideia de ir mais além do professor Molinari graças a frase no começo do texto: e se não é um fim do mundo e sim, o fim do capitalismo? Porque no primeiro filme – pelos carros é no fim da década de 70 – há uma grande parte de gangs de motoqueiros que assombravam as estradas. Que mostra que não só as sociedades estavam se colapsando, mas o modo capitalista de ser entrando em uma era de trevas. A própria saga mostra que não houve tempo em um desenvolvimento computacional e só há um mundo mecânico usando a técnica como mais realista. O mundo que se colocou como mecânico e cruel, como a crítica heideggeniana da tecné ser usada muito mais do que a moral.

A ideia é bastante simples: o colapso retratado nos filmes não é só um fim do mundo (a realidade que estamos acostumados), mas o fim do sistema capitalista. Com o aumento de gangs de motoqueiros – com o fim de governos e o colapso dos meios de produção pré-guerra – e uma sociedade que esta perdendo a sua estrutura e sua moralidade, mostra a falha capitalista (vulgo burguesa) de manter a coesão social. Ou seja, esse cenário nos mostra uma predominância tecnológica mecânica e a ausência da computação avançada que, poderemos interpretar, como uma critica a dependência social humana na tecnologia na produção em messa, que seria o elemento base do capitalismo.

E como Heidegger entra nessa critica? Ele argumenta que a tecnologia moderna transforma a natureza em um mero recurso para exploração e que chama de Gestell (enquadramento). Acreditava que essa abordagem técnica ao mundo nos afasta de uma relação autêntica com o ser e com a existência. Na saga, essa crítica pode ser vista na forma como a tecnologia é usada para dominar e controlar, em vez de promover o bem-estar humano. E se refletimos um pouco: não é isso que anda acontecendo? O X (ex-Twitter), não é diferente da saga, pois, com as redes sociais, a humanidade está sendo dominada pela tecnologia com opiniões, desejos incontroláveis, luxuria e um niilismo moral como se as pessoas esquecem de ser elas mesmas por likes. Miller acertou o colapso humano, só errou como seria.



terça-feira, junho 11, 2024

RACHADINHA E A JANELA DE OVERTON

 






AMAURI NOLASCO SANCHES JÚNIOR

(BACHAREL DE FILOSOFIA)

 

 

Há uma guerra ideológica e ninguém se deu conta ainda. O outro texto sobre a briga do Roger Moreira (Ultraje a Rigor) e o locutor da Kiss Fm, Marco Antônio Abreu (Titio Marco Antônio), mostrou como narrativas são montadas para desmontar o discurso questionador. As manifestações de 2013 foram esvaziadas graças a doidos que começaram a pedir intervenção militar – como se em 64 foi mesmo o povo que pediu por ela ou foi uma manipulação política dos coronéis – e outras coisas, como confundir a bandeira do Japão com a comunista. Aí fica fácil: “olha lá, um bando de maluco pedindo ditadura em nome da democracia” ou “agora tudo é comunismo”. Na verdade, ninguém sabe o que é o comunismo de verdade, mas, como diz o ditado: “o povo escuta o galo cantar e ele não sabe onde canta”.

Estou lendo o livro “A Janela de Overton” de Glenn Beck onde monstra (de uma forma ficcional) como poderia ser formado a politica e como a opinião pública está sendo sempre moldada. Isso, quem estuda a sociedade, sempre foi usado como arma de alienação para não se vê a verdade. Filósofos sempre foram vistos como pessoas não gratas dentro da política, pois, nós buscamos a verdade seja onde estiver essa verdade. Na verdade, esse romance remonta a teoria idealizada por Joseph Paul Overton onde, segundo a Wikipedia, quando ele descrevia a janela dizia que a viabilidade politica de uma ideia principalmente de ela cair dentro da janela, ao invés de preferencias individuais de políticos. Segundo descreve Overton, sua janela inclui uma gama de políticas consideradas politicamente aceitáveis no clima atual da opinião pública, que um político pode recomendar sem ser considerado excessivamente extremo para obter ou manter cargos públicos.

Ou seja, o conceito demonstra, por exemplo, quais tipos de posições são consideradas aceitáveis dentro de determinada sociedade naquele momento. Remontando dentro desse cenário, se uma figura publica deseja ser benquista pela massa (ou uma grande maioria dela) então suas opiniões devem variar dentro dessa janela. Extrapolar pode significar uma rejeição. É o que o personagem Noah – filho do dono da empresa onde são veiculados as narrativas espalhadas na mídia – disse dado momento em um discurso. Quando vimos um maluco supremacista branco, um reacionário que não gosta de mulher etc, mesmo que esse discurso seja verdadeiro, ela vai ser invalidado por causa do supremacista branco com o discurso: “olha lá, eles são preconceituosos e nazifascistas” por causa desse apoio dessa gente esquisita.

Mesmo assim tem uma outra problemática, muitas vezes teorias da conspiração tem um ar de confirmação das suas próprias crenças. por exemplo, as urnas eletrônicas não tem nenhuma entrada dentro da internet, mas há quem jure que elas foram fraudadas graças ao sistema (leia-se, os três poderes). Existem dois extremos, um que as urnas são fraudadas e que as urnas não foram fraudadas, mas o que se encaixa dentro da janela é que a urna não foi fraudada, porém, o povo foi iludido com a mídia. A meu ver, essa janela teria a ver com a percepção das pessoas sobre as crenças que elas montaram dentro das suas cabeças. Até hoje, Bolsonaro é tido como uma referência de honestidade e uma renovação, mesmo que tenha ficado como deputado federal 28 anos da sua vida (parasitando parasitas do Estado). Do mesmo modo, Lula é ainda o metalúrgico sindicalista que ganhou fama atuando dentro dos sindicatos e fundando o PT. Há um extremo no Bolsonaro e no Lula, que cabe dentro da janela algo aceitável dentro da imagem palatável dos dois.

Como uma teoria de um libertário – Overton não teve tempo de desenvolver ela por ter morrido cedo – poderíamos usar a questão do Kogos como o estereotipo de um libertário que só é mais um nerd reacionário, católico fanático e que se diz anacocapitalista. Não, anarcocapitalistas não podem ser libertários, pois eles são muito mais voltados para o mercado (o modo econômico). Os libertários são mais voltados a filosofia, ética e são liberais clássicos (o que poderíamos chamar de ultraliberais) e defendem o livre mercado. Dentro da política e o Estado, libertário tende a defender uma diminuição com uma educação de autogestão, para a sociedade não precisar mais do Estado e os serviços serem voluntários. Hoje, por exemplo, você pode comandar os bombeiros, amanhã você pode não ser nada ou trabalhar em um negócio próprio. Claro, poderia funcionar sem a dependência humana de ser governado e não se governar.

A dependência do Estado leva a discursos cada vez mais dentro da janela, ou porque a sociedade acha precisar de determinado político para resolver seus problemas, ou porque não entendem nuances de determinado discurso de alienação. Isso nada tem a ver com ignorância. Hitler, por exemplo, persuadiu a maioria de uma sociedade apenas explorando o que as pessoas mais tem medo: a fome e a falta de emprego. E a sociedade alemã da época era bastante leitora, mas, ao que parece, tendiam a serem crédulas de teorias e crenças que vira e mexe, voltam sempre. A Europa, por exemplo, ainda abordam fetos com Sindrome de Down que esta também na janela, pois usa um discurso de liberdade da mulher e no outro lado, usa um discurso capacitista de não aceitação da deficiência e colocando ela como um “sofrimento”. Hitler ao assinar o extermínio de deficiente chorando dizendo que éramos “sofredores eternos”.

Dentro da nossa janela brasileira está a corrupção (rachadinha) que não importa qual é o lado. Tanto André Janones, quanto Flavio Bolsonaro, provam que alguns discursos são tolerados dependendo do espectro político de um dos lados. Porém, lulopetistas e bolsonaristas tem o mesmo modo operante.

segunda-feira, junho 10, 2024

O ROCK IDEOLÓGICO E O ROCKEIRO ‘REAÇA’

 


AMAURI NOLASCO SANCHES JÚNIOR

(BACHAREL EM FILOSOFIA)

 

"O guitarrista Marcos Kleine, da banda Ultraje a Rigor, pediu a demissão do locutor Marco Antonio Abreu após o radialista ter comemorado que sua rádio, a Kiss FM, promovesse o cancelamento do show do grupo musical em sua festa de aniversário. Através de seu perfil no X, Kleine, conhecido por ser bolsonarista, pediu a cabeça do profissional: ‘E aí @Kiss_FM, vão demitir o cara? Ou vão passar pano?’ A extrema-direita, sempre defensora da ‘liberdade de expressão’ não aguenta críticas mesmo.”

(DCM – jornal da extrema esquerda)

 

Muitas pessoas podem perguntar: o rock como manifestação contracultural tem a ver com a filosofia? Como indagador do senso comum diríamos sim, como um serviço de uma pauta ideológica – como no caso de algumas bandas já consagradas – diríamos que não. O rock como a filosofia tem que se livrar do ponto ideológico (discurso político que Marx denuncia no seu tempo) e, desde seu nascimento, ser aquém desse discurso e ir contra tudo que esta ai. Filósofos e rockeiros que tomam uma posição se tornam algo o que eles juram combater, seja de um lado da canalhice politica, seja do outro lado dessa canalhice politica.

A briga do Roger (Ultraje a Rigor) e o locutor Marco Antônio Abreu (Kiss FM) nos diz muito como a discussão politica ficou rasa ao ponto de se chamar o vocalista e líder da banda oitentista, de fascista. Do mesmo modo que bolsonaristas acabaram banalizando o termo “comunista”, o lulopetistas acabaram banalizando o termo “fascista”. Grosso modo, o bolsonarismo, no máximo, tende a ser uma reação ao que esta ai e uma tentativa bem fajuta de reagir a uma suposta revolução (do mesmo modo da suposta revolução de Jango que deu os vinte anos de ditadura militar) e ser um desastre nisso. Porque o clã Bolsonaro é um desastre em tudo, mesmo com seus aliados que não sabem fazer um discurso. Chamar esse “desastre” de extrema-direita é muita vontade imensa de construir narrativas. Ou seja, blogs como o DCM (Diario do Centro do Mundo), é sim uma maquina de fazer narrativas e construir historias muito bem construídas para usar o povo idolatra ou ignorante, como massa de manobra.

Costumo pensar que, como ouvi um vídeo de um professor de filosofia (no qual, não me lembro o nome), que a filosofia rejeita o senso comum não por amor a sabedoria, mas, por ódio desse senso comum. Sócrates usou isso indo contra o senso comum da sua beleza e achando que todos politikons (cidadãos) sabiam das coisas graças aos sofistas (que para mim, eram sim filósofos), e ele provava que não. Platão vai eternizar isso com o mito da caverna, onde aqueles que pensavam saber, só viam a sombra e o homem que saiu dessa caverna, era o que sabia saber só  o que estava na entrada da caverna. Um dos maiores mitos da ultimas décadas por causa do ódio é o vilão Darth Vader que com seu ódio, conquistou uma galáxia inteira. O Coringa com sua raiva de se tornar o que é, se mantem vivo e luta contra o Batman.

O problema não é o “ódio” em si mesmo, mas onde é direcionado esse “ódio”. Como diria Freud, o ódio poderia ser o impulso rumo a uma reação a morte e tudo giraria dentro disso na vida. Os Redpills, por exemplo, tem ódio por mulher porque acham ser rejeitados por elas por não saber lhe dar com elas, a ignorância do outro (a mulher). Do mesmo modo, bolsonaristas tem ódio do comunismo por não entender o comunismo, e o lulopetismo tem ódio do fascismo por não entender ele. O outro não pode decidir aquilo que eu acredito, quem tem que decidir sou eu. Quando o “titio Marco Antônio” chama a banda de “fascista”, ele cooptou o pensamento dos outros que chamar eles de fascistas por causa do apoio do Roger ao Bolsonaro. Isso é contra o rock, onde os outros não podem mandar o que eu digo ou faço. O rock é rebelde.

Roger erra por apoiar Bolsonaro (ou o bolsonarismo) só por ser contra o lulopetismo, porque está sendo incoerente com as letras que já fez no Ultraje. Por que, ser contra alguma coisa, tenho que ser outra? Quando focamos em um lado só, só vamos ser um qualquer como inúmeros fanáticos e alienados. Ai, você está na caverna.