quinta-feira, janeiro 18, 2024

Sócrates não disse ‘só sei que nada sei’




 Em um trecho de Apologia de Sócrates, Platão escreve: “Mais sábio do que esse homem eu sou; é bem provável que nenhum de nós saiba nada de bom, mas ele supõe saber alguma coisa e não sabe, enquanto eu, se não sei, tampouco suponho saber. Parece que sou um nadinha mais sábio que ele exatamente em não supor que saiba o que não sei.” (PLATÃO, 1980, p.6).


(Texto: Só sei que nada sei)


Grupos de filosofia de Facebook são pura perda de tempo e de estudo, se quer aprender filosofia faça um bom curso. Se tratando em curso no Brasil - de filosofia piorou - são todos vagabundos e cheios de erros do mais simples ou do mais grosseiro, ainda sim, o caminho universitário é um começo e aprendemos muito em pesquisar. Aprendi a sistematizar meus estudos e pesquisar muito melhor - com ênfase naquilo que quero escrever - e sigo aquele ditado <quem faz a escola é o aluno>, Esse negócio de que filosofia <aprende com a vida>, para mim é coisa de pessoas folgadas. Adoro meu bacharelado e aprendi muitas coisas.

E nesse aprendizado - com o canal INEF (Isto Não é Filosofia) - descobri uma coisa: Sócrates não disse <só sei que nada sei> e pelo que eu pesquisei mais a fundo, realmente não disse. Segundo minhas pesquisas - foram muitas - foram os filósofos romanos que sintetizam o pensamento socrático em uma frase e depois, o cristianismo adotou. A frase <só sei que nada sei> é uma síntese do parágrafo que postei no começo do texto. Por outro lado, algumas pessoas teimam e disseram que ele disse, que é plausível, já que essa crença perdura por muitos anos. E existe um outro problema que quem escreveu a Apologia: Platão estava doente e não estava presente. As únicas fontes de discípulos são Xenofonte e Platão (se teve outros, foram queimados na biblioteca de Alexandria). E escreveram sobre Sócrates.

Há uma grande discussão se Platão estava fugindo (por isso fundou a Academia anos depois como um depósito de todo conhecimento filosófico por terem matado seu mestre), ou se ele estava doente. Acho interessante pesquisar e encontrar textos muito mais “alargados”, porque isso faz com que possamos questionar algumas crenças. Encontrei uma transcrição de um livro do I. F. Stone (1988), O Julgamento de Sócrates - não achei em PDF - onde ele conta que Xenofontes escreveu muito mais sobre Sócrates, realmente, do que Platão. Xenofontes não era da aristocracia ateniense, Platão era. Segundo Stone, Xenofonte teria tido muito mais liberdade de falar e transcrever (fielmente?) do que Platão. Só nisso refuta os “ratos de grupo” que desacreditam que Sócrates só seria um mero personagem, pois, não tem só Platão para se basearem. Mas, será que a Apologia é fiel?

Para defesa de Platão, Xenófanes também não estava no julgamento e morte do mestre e que, mesmo assim, ele foi para Esparta e Platão ficou em Atenas. Alguns biógrafos de Platão - um excelente é Giovanni Reale - defendem que Platão viajou muito depois da morte de Sócrates e que volta e funda sua Academia para, como o mestre, não destruírem o legado como fizeram com o mestre. Como muitos sabem, a filosofia não era bem vista na história da humanidade, em Atenas não era diferente. Nem todos gostavam de filosofia, porque a filosofia tem um ar de racionalidade das crenças vigentes e as ideologias políticas, esta inclusas.

Mas, transcendendo o senso comum, a filosofia não afirma nada e sim, indagar as coisas desde o começo. Mesmo porque, as pessoas são muito mais práticas do que racionais, como o preconceito contra os filósofos que a tradição tem milhares de histórias. Como uma escrava teria rido de Tales de Mileto por ele ter caído em um buraco por tanto pensar ou olhar os céus - estranhamente, tanto a religião quanto a filosofia, sempre foi voltada ao céu em um modo de se ter uma outra realidade - e esse riso (Foucault diria ser uma normalização de conduta que acontece desde esse tempo) teria sido por achar estranho essa conduta de raciocinar e ver que as coisas como conhecemos pode ser uma questão de linguagem e discurso. Há uma discussão muito antiga dentro da filosofia sobre o papel da escolaridade (educação é uma outra coisa mais familiar) dentro de formar e mostrar a realidade para os mais jovens. O que seria a realidade a não ser coisas condicionadas dentro de um discurso?

Mesmo se Sócrates não disse o “só sei que nada sei” - que foi a síntese do parágrafo do começo do texto - temos que pensar que o filósofo não exaltou a humildade no sentido de exaltar a ignorância e sim, não querer saber aquilo que não sabe. Por exemplo, eu não posso dar dicas de coisas medicinais (médicas), pois não sou médico e não posso opinar sem colocar vidas em risco. No mesmo modo, aquilo que você acha que sabe não sabe, mas aquilo que não sabe é a sua ignorância. Por isso mesmo tanto Sócrates quanto Platão, diziam que não existia bem enquanto entidade e sim, conhecimento e o mal, como ignorância.

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