domingo, novembro 15, 2015

Não somos tão vitimas








"Metade vítimas, metade cúmplices, como todo mundo" J-P. Sartre


Quem entendeu a frase de Sartre, talvez entendeu o nome do meu texto. Sim. Somos metade vitima e metade cúmplice como todo mundo, porque compactuamos com o que está ai. Não é protestando – principalmente protestos hippies que nada adiantam – e nem negando o que se faz para colaborar ou com o progresso do nosso país, ou o atraso dele e isso é muito evidente. Não é dando coisas, bolsas infinitas, que vamos sair da miséria e isso não é meritocracia e sim, uma maneira sustentável para se viver e o único “remédio” é perceber a manipulação do poder. Não vou votar porque não acho necessário, porque sempre o poder publico não faz o que tem que fazer, não cuida o que é para cuidar, não me agrada os programas políticos (difícil ter algum partido que tenha um programa tanto para deficientes, quanto para o quem o elegeu), não concordo com as ideias da maioria do nosso povo. Para quê votar se não te agrada nem mesmo, a cara da maioria desses políticos que estão ai? O problema não é a politica em si, já que somos animais políticos.
O termo politico vem do grego “politikos” que era um termo para designar os cidadãos da polis (os que eram livres). Da mesma família vem polidez que é, num grosso modo, uma pessoa que tem boa educação, civilidade, delicadeza e urbanidade. A ironia disso tudo é que na historia humana, nem sempre ser polido significou ser ético ou provido de alguma moral, pois se pode ter uma boa educação, ler os melhores livros, mas não ter noção de se colocar no lugar do outro enquanto ser da mesma especie. Talvez, nosso sangue latino que ao longo da historia, tenham formado vários países e um desses países seja o Brasil – uma mistura de povos nativos com povos vindo de vários lugares – não tenham entendido isso. Como escrevi varias vezes, a etimologia de ética vem do termo grego “etike” que por sua vez vem de “ethos” que significava caráter e que ao longo do tempo, os povos gregos foram conquistados pelos romanos (nossa matriz latina), e que traduziu “ethos” como “mos” ou no plural “mores”, por “relativos aos costumes” e dai por diante, o importante não era o caráter do ser humano que fazia a diferença, mas como ele tratava os costumes e a cultura que ele estava inerido. A grosso modo, não interessa que você trate seu vizinho mal ou até mesmo, nem ligue para a comunidade que você está inserido, mas que você siga as leis estabelecidas pelo império e que ame só o imperador romano (os vários “cesares” que eram os augustos). Na idade media, que Umberto Eco vai dizer que é muito relativo esse período, vai ficar muito evidente isso, porque o importante era seguir as leis dos feudos através da igreja romana. Não interessa o que você acha, mas o que é realmente, a igreja usava sim as crenças para estabelecer as leis. Voltando, então a ética acabou ficando como o que fazemos e como agirmos e a moral como seguimos nossas varias tradições. Ser um cidadão que segue as leis é ético, seguir as tradições e um bom costume, é ser moralizado.
Vamos voltar a polidez para entendermos como educação instrutiva (aquela das inúmeras escolas e culturas diversas) não garante que tenhamos uma civilidade verdadeira e nem uma moral, como ser social, de respeitar as posições e opiniões dos outros. Os nazistas eram em sua maioria polidos, lia ótimos livros, escutavam ótimas musicas, tinham hábitos alimentares e alguns, não bebiam álcool, não fumavam (principalmente, Hitler). Porem, porque sempre tem um porem, mataram milhões de pessoas como se fossem animais (nem com animais se pode fazer isso), como se matar outro ser humano de outras etnia ou de outro pensamento, fosse resolver os problemas humanos que não terminaram com a urbanização, industrialização e a produção de massa de bens e produtos. E para aqueles que ficam repetindo como papagaios aquele que nem é professor e nem filósofo – não vou repetir o nome porque não vou dar audiência para um velho xarope – e me chamarem de comunista, vou dar outro exemplo de polidez. O comunismo soviético com suas escolas doutrinadoras eram extremamente, polidos. Os maiores revolucionários que derrubaram o czar da Rússia, eram professores e alguns até professores universitários que tinham grande grau de cultura, porem, mataram milhões de pessoas a todo o tempo e sobre qualquer pretexto. Benito Mussolini (que se diga, era socialista) era jornalista e vários outros, que tiveram uma boa educação e eram civilizados, eram urbanizados e sensíveis (dizem fontes que ao assinar a eutanásia para milhões de deficientes alemães, Hitler tenha chorado por achar essas pessoas sofredoras eternas), não é garantia de ética e muito menos, da verdadeira moral que leva o ser humano ao costume verdadeiro (não ao moralismo que é outra coisa).
Nessa perspectiva a tese de Karl Marx cai por terra, porque não é o conhecimento em si que tira o ser humano da alienação (mesmo o porque o conhecimento é o que fazemos da informação), mas a instrução certa no momento certo que vai tirar o homem da escravização. Nem todo o conhecimento tirará o homem da sua alienação, mas sim, o conhecimento que nem sempre é o conhecimento da massa. Por que? Porque somos animais morais (por sermos sociais), mas não somos animais éticos, pois a ética (caráter) é construída por fatores culturais e familiares e que é a viga mestra para criar pessoas que respeitam os outros. Por que o ESTADO (não sou a favor do ESTADO, mas é o que temos agora no momento), decreta leis que as crianças devem ir na escola a partir dos cinco anos de idade? Porque parte do principio que a formação ética já está formada como primeiro pilar da formação de um ser humano, depois ele se formará com os conhecimentos que a cultura humana, produziu ao longo de séculos adentro. Como vários pensadores disseram, existem vários problemas antes do capitalismo que o capitalismo apenas herdou – como o moralismo cristão e as varias crenças e ideologias que se criaram a partir da nova ordem monetária e econômica – e talvez, usou como refugio para melhor alienar o ser humano, mas não advêm do capitalismo deixar o homem ignorante, deixar o homem escravo e sim, o ESTADO. Aliás, o marxismo errou o alvo em determinar que o grande detonador da guerra de classes seja o capitalismo, pois o grande detonador é o ESTADO e sem o ESTADO o capitalismo não pode continuar existindo. Por isso mesmo que digo que não existe anarcocapitalismo, porque não existe um capitalismo voluntario (nem existe meios para isso existir), não existe meios de grandes acúmulos de capital no anarquismo e em sua essência, o anarquismo é contra a competição, porque graças a competição o homem não se solidariza com o outro homem (como ser humano).
Não interessa a ideologia, os “ismos” só são um refugio daquilo que realmente é necessário para o ESTADO dominar (seja uma ideologia politica ou ideologia religiosa). Quem vai fazer convencer que “deus cuida quem cedo madruga”? Quem vai inventar uma “guerra santa”, uma guerra contra isso ou guerra contra aquilo? Quem comanda os meios de comunicação para te alienar? Sem o ESTADO não teríamos religiões (existe uma distancia enorme entre religião e espiritualidade), sem o ESTADO não haveriam trabalhadores (seja no socialismo, no comunismo, no fascismo, no nazismo, no capitalismo), sem o ESTADO não haveria desejos supérfluo, competições desnecessitaras, cultura de massa. Mas quem apoia o ESTADO? Quem mergulha o próprio braço para os sanguessugas sugarem seu sangue? Somos nós com a incrível mania de acreditar e ainda querer brincar de “meu chefe mandou”. Se é assim, por que tenho que votar se sei que o ESTADO é governado sempre pelos “mesmos” e pelos mesmos interesses? Só comparar as mortes banalizadas mundo a fora e o motivo é sempre o que o ESTADO coloca como “verdade”, como o bem da comunidade ou nação, sempre é aquilo que precisamos para garantir a nossa felicidade. Mas o que é felicidade? O que o tanto esse desespero de sermos felizes e depender do poder para ser feliz?
Felicidade não é uma coisa, não depende de “desejos” supérfluos ou um objeto que você compra no supermercado, você é feliz ou não é, tem que ser um estado e não uma coisa artificial. Para quê desejamos ser feliz? Para quê desejamos tantas coisas para ela se demonstrar na sua vida? Dai que cheguei onde queria. Qual a diferença do rompimento das barragens de Mariana-MG e os atentados de Paris numa ótica humanista? Qual a diferença de uma democracia que proíbe e te convence com um tipo de discurso do poder – que é evidente que esse tipo de coisa há muitos interesses – e uma ditadura militarizada? Nenhuma. O próprio ESTADO faz com que você pense que um é malzinho e o outro é bonzinho (que muitas vezes o próprio ESTADO coloca e tira), simples assim. Não temos nem direita e nem esquerda, não temos nada de partido de libertação e partido de interesses trabalhadores, ninguém fará nada e ninguém dirá nada a nós para nos libertar e sim, sempre pregara uma liberdade que só vai interessar aos interesses deles. Talvez, Sartre no seu iluminar das ideias (já que não sei o contesto dessa frase), vem com o aspecto que ele mesmo concluiu, não somos tão vitimas assim. Isso mesmo. Escolhemos os mesmos governos que que não levaram a manutenção a barragem de Mariana-MG, escolhemos os mesmos governos que apoiam guerras, deixam criminosos e traficantes dominarem a sociedade mais pobre e dão, num modo paliativo e sem nexo, uma bolsa família para servir de analgésico para essa gente. Escolhemos os mesmos que vendem armas ao EL (ESTADO ISLAMICO), e ao mesmo tempo, se faz de desentendido e até se solidariza com os atentados e quem morre, não são eles, é o povo. Escolhemos governos que não prontificam de realizar nossos direitos e sempre não vão investir na saúde, não vão investir na escola, não vão investir em construção de casas, não vão investir em infraestrutura e não se engane, em todos os países do mundo são assim, só que nos outros os políticos não são descarados. Quantas pessoas esperam uma consulta? Quantas pessoas esperam por uma operação em hospitais públicos? Quantas pessoas necessitam de aparelhos, órteses e próteses, cadeira de rodas, entre outras coisas, porque não tem meios de trabalhar (porque não se cumpre uma simples lei de cotas para deficiente) e não é cumprido? Os mesmos que votamos são os mesmos que não cumprem nada que deveriam cumprir. Quem colocou lá? Não adianta intervenção, não adianta democracia, não adianta nada se não construirmos uma sociedade com um caráter solido, com um caráter que não é fazer o que quer, mas fazer o certo.
O mal caráter não é aquele que menti, mas aquele que não diz a verdade. Parece sinônimo, mas não é. A mentira é o encobrimento de uma verdade, contar a não verdade é dizer uma verdade que só você acredita por vários motivos. A mídia mente  ou diz a não verdade? As vezes acho, porque não tenho certeza, que a desobediência civil é a solução mais que verdadeira para o mundo de hoje.

 Amauri Nolasco Sanches Junior, 39, publicitário, TI e escritor/filosofo  

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