domingo, março 01, 2020

Ser você mesmo num país da 'manadas'



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E, chegando Jesus às partes de Cesaréia de Filipe, interrogou os seus discípulos, dizendo: Quem dizem os homens ser o Filho do homem?
E eles disseram: Uns, João o Batista; outros, Elias; e outros, Jeremias, ou um dos profetas.
Disse-lhes ele: E vós, quem dizeis que eu sou?
E Simão Pedro, respondendo, disse: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo.
E Jesus, respondendo, disse-lhe: Bem-aventurado és tu, Simão Barjonas, porque to não revelou a carne e o sangue, mas meu Pai, que está nos céus.

Mateus 16:13-17

Há muito tempo que venho observado que o nosso povo gosta de agradar os outros e sempre se rendem a religiões vigentes ou não, ou ideologias que nada tem a ver com o que gosta ou que faz. Ora, existe a mentira e a verdade, o que você é como ente que pensa e percebe a realidade e aquele que não é, se transveste de um ser social que não é. Na realidade, nem podemos saber o que é verdade ou que não seja verdade, porque não sabemos qual a natureza da nossa própria natureza do nosso eu (ego). Há um erro muito grave em dizer que o ego que o budismo – em parte os ensinamentos de jesus também – é o eu que emana da natureza da nossa consciência. Não é. O ego que o budismo quer que dissolvemos é o ego falso, o ego que é fabricado com as regras sociais que ao invés de colocar o ser humano no caminho da verdadeira evolução, coloca no caminho onde o poder quer que ele fique. Afinal, será que vale a pena seguir multidões por causa de uma religião ou uma simples ideologia e deixar nossa natureza e a nossa opinião?

Nietzsche – filósofo alemão do século dezenove – dizia que a verdade era uma questão de linguagem, que era apenas um discurso para todos não ficarem brigando um com os outros. Igual a filosofia de Hobbes quando ele dizia que há um contrato, leis e o ESTADO para controlar a natureza humana como seres que estão sempre em conflito. Mas, há um erro grave, se a verdade é só uma questão de linguagem para o poder dominar, então, tudo seria uma subjetividade? Uma maçã, por exemplo, que podemos estar vendo, nada mais é, do que um objeto que estamos vendo e sabemos que se chama maçã. O verdadeiro, aquilo que achamos ser a realidade, nada mais é do que o conceito do objeto (que daremos um nome) e o objetivo (que daremos uma colocação dessa realidade). Portanto, a realidade (como verdade) são os valores que damos ao objeto dando a ele, o objetivo necessário para ele ser real. Quem estuda e gosta de exatas (como lógicos e matemáticos), vão dizer que a verdade é 2+2, mas, se fomos muito além da operação de soma, 4 pode ser varias coisas. 1, 50 + 1,50 dará na mesma forma, 4. A verdade ali se fragmentou em uma outra verdade, porque tanto 2+2, quanto 1,50+1,50, são 4 e a verdade que era única, ficou como duas verdades.

Se, realmente, a verdade seja como Nietzsche colocou como algo que depende de um discurso, a maçã sé um nome vago de um objeto que definimos como maçã. Assim como, 4 seja apenas um algarismo que são valores que demos a varias coisas. Por que não, numa outra galáxia, pode ter seres inteligentes que tem outras mecânicas de contagem? Então, o 4 é um caractere para designar um certo numero de objetos e, afinal, é um meio de linguagem para explicar aquilo. Assim, Nietzsche teria razão que é uma questão de dominação linguística, pois, alguém de um passado remoto imaginou um caractere que designava 4 e esse caractere dominou todo o entendimento do numero quatro. Por outro lado, podemos escrever “neve” ou “snow” e acabara designando o elemento neve como uma realidade. Porque a linguagem acaba sendo algo subjetivo dentro de uma certa ordem cultural, porém, a neve é neve acima do termo designado. Nietzsche, talvez, pensou em termos e uma linguagem mais cotidiana e menos formal ou ate mesmo, uma linguagem religiosa e racional (no sentido de racionalismo), que nos limita a obedecer a certas sentenças que são moralizantes e moralistas.

Ser você mesmo é buscar o nosso ego transcendental de ser você mesmo dentro dos fenômenos da realidade objetiva, sem ser dominado, por uma linguagem dominante. Ou seja, existem certas marcas de dominação social dentro da própria linguagem. Por exemplo, minha mãe nunca ensinou a nós – eu e meus irmãos – pedir “benção” para ela e meu pai (mesmo o porquê, nunca fez questão de nenhuma religião e levar seus filhos para uma), mas, por outro lado, pedia para meus avós. O “pedir benção” é um meio para se educar um filho para a dominação social, porque ele vai aprender a ser domesticado e a seguir a religião dominante. Assim, o “pedir benção” é a expressão clara da opressão social, pois, eu posso não querer “pedir” e vou ser julgado como um desrespeitoso. Mas, o “pedir benção” não é garantia nenhuma de respeito. Ter ou não respeito não tem o mesmo significado de amor, você ama e dentro desse amor já há respeito e consideração e se você precisa de provas desse amor, você está dominando. Não é porque não pedia “benção” para minha mãe, que não respeitava ela (como respeito como espirito). Na verdade, talvez, o “pedir benção” para ela, era apenas palavras que não demonstravam nada e ela não precisava disso para saber do amor e do respeito dos seus filhos. Talvez, Suzana von Richthofen poderia sempre “pedir benção” para seus pais, que não impediu que matasse eles. Portanto, até aqui, Nietzsche tem uma certa razão de desconfiar que certas colocações linguísticas são dominadoras.

Mas, o que seria o mentiroso? Ora, o mentiroso é aquele que usa os termos para definir uma realidade é, sendo que, ela não é. Por exemplo, ele pode dizer que “gosta” de alguém e na verdade, não gostar dessa pessoa, pois, se coloca como uma pessoa que cria uma personalidade que não é dele. Mesmo o porquê, como Nietzsche, também acho que o problema não está na ilusão para o sujeito comum, mas os efeitos negativos que ela pode deixar dentro de uma linguagem. Como no exemplo do mentiroso, ele dizer que “gosta” de certa pessoa e na verdade, ele não “gosta”, não é o problema, porque isso só vai acarretar uma desconfiança nele. O problema é a massificação desse tipo de vicio na linguagem, como se todo mundo “tem que” dizer que gosta, porque começa a ser uma tradição cultural. A massificação da mentira. Essa massificação da mentira é apenas o que Kant colocou em seu imperativo categórico, ou seja, faça de suas atitudes coisas que possam ser universais. Então, quando colocamos que existem questões linguísticas dentro da ética e da moral (embora dicionários e enciclopédias dizem ser a mesma coisa, não são não), dizemos que há um interesse dominador dentro de carapaças moralizadoras. Mas, cuidado, existem certas linguagens que tentam quebrar as amarras de linguagens dominantes, que de certa forma, são também atitudes e uma linguagem dominante do mesmo modo.

Podemos usar o funk carioca como exemplo. Suas musicas tentam quebrar a linguagem dominante da moralidade, mas, cai exatamente, na massificação da mentira. Mesmo o porquê, a essência do funk é sempre questionar a moralidade vigente e a cultura burguesa. A questão é: quando você diz que vai “passar o rodo na novinha” – estou dando um exemplo bem mais leve – você não está incentivando anda mais a questão machista de ser o “macho” da espécie? Não seria invasão do corpo da “novinha”? Aí vamos voltar ao caso do mentiroso, porque a música diz que questiona uma certa opressão, mas, acaba, ao mesmo tempo, oprimindo a “novinha” à ceder ao “machinho” copular e invadir o seu corpo (que é uma propriedade dela). Como a questão religiosa dominante do “pedir benção”, a questão da liberdade é uma questão de questionar os questionamentos de uma massificação linguística de certos nichos que tem uma visão ilusória que estão questionando uma opressão. A liberdade tem o mesmo problema da verdade. Vamos colocar dessa forma: a “novinha” (aquilo que se deseja) esteja apenas ali para dançar e não para outras coisas (sexo?), mas, existe o objeto e o objetivo, o objeto é a “novinha” e o objetivo é “passar o rodo”. Qual a liberdade existe nesse caso? Pode a “novinha” não ter nenhuma escolha a não ser ceder?

Podemos definir como liberdade uma condição de ação e reação dos atos humanos, porque só o ser humano tem a consciência da sua realidade. Sartre – filósofo francês contemporâneo – dizia que o homem nasceu livre, ou seja, existe uma condição de escolha e dessa escolha vai definir o que é ou não. Então, temos duas definições: uma de Nietzsche de linguagem e outra de Sartre ontológica. Mas, todas as duas, desemboca da verdade e na liberdade. Liberdade dois aspectos: primeiro é o aspecto de conhecer quem você mesmo é e isso torna a consciência, de dentro para fora. O eu cogito (que podemos colocar como eu transcendental), se vê primeiro do que a realidade em volta de si e ai sim, se volta ao objeto externo. Ou seja, o ser se encontra como ser, pensante para perceber o outro como objeto e o objetivo desse objeto. Segundo perceber que se eu existo como base de minha própria consciência de uma realidade única e minha (porque até mesmo a consciência é algo individual) e assim, perceber nossa própria existência. Ai começa minha própria filosofia do NÃO (ou como passei a chamar, A Tese do Individualismo Consciente). Pois, quando você nega coisas que você não tem vontade ou nega fazer as vontades alheiras sem ter vontade, você faz escolhas e essas escolhas vão filtrando até chegar a tua verdade construindo a sua realidade. Chegamos ao subjetivismo? Não. Ainda o subjetivismo vai aceitar algumas amarras sociais e vai despertar algumas ilusões daquilo que aceitou como verdade posta, sem ver, que há verdades espontâneas.

Como na passagem que coloquei no começo do texto, Jesus quis saber o que as pessoas diziam dele e Pedro disse o que ele era realmente e Jesus disse que Pedro tinha visto não só a aparência física e sim, o seu verdadeiro eu (ego). Quando somos nós mesmos, não precisamos de religião para religar nós ao divino, nem governos que só alienam e nada nos ajudam, mas, se autogovernamos e percebemos que a liberdade que nos “vendem” é uma liberdade ilusória. Não diferente do filme Matrix.

Amauri Nolasco Sanches Junior




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