Em tamanha relatividade o que é ou não pensador, fico estarrecido
que a funkeira Valesca Popozuda foi chamada de “a grande pensadora
contemporânea”. Irônico ou não, é uma coisa para se pensar no meio de tanta
falta cultural que temos em nosso país, porque passamos por uma grande crise no
modo de pensar, porque pensar ficou obsoleto. Na minha opinião quem deveria
sortir todo o credito de ser uma futura pensadora é a pequena Tatá que numa
simples resposta sintetizou toda a sociedade contemporânea em um resumo
simples, ela quer ser “puta”. Por que ela quer ser “puta”? É provável que ela
nem saiba o que é “puta”, pois deve ter ouvido de algum lugar, mas as
televisões e os meios inúmeros de comunicação estão ai para ensiná-la e quem sabe
ela queira ser ou não “puta”.
O termo “puta” vem do latim e quer dizer “poda” por
causa da deusa menor da agricultura que no tempo da poda das arvores, suas
sacerdotisas celebravam com um bacanal e até se prostituíam. É bem provável que
por isso o termo moderno para as prostitutas seja “puta”, mas seria muito
engraçado chamar uma prostituta de “poda” e até assustador. Podar o que do
homem? Nada demais não? Mas Tatá muito provavelmente está dizendo no seu
significado moderno, seu significado da prostituta que se prostitui porque não
sabe fazer nada e não vamos ser hipócritas, muitas vezes não quer fazer nada.
Igual jogador de futebol, é fácil, é rápido, é pratico e não precisa de curso,
não precisa anos sentado numa sala de aula aguentando professor e depois aguentado chefe (algumas tem cafetão). Nunca fui num prostíbulo porque nunca
achei interessante ir, nunca aceitei essa idéia machista que homem deve ir ao prostíbulo provar para os outros que é homem. Aliás, meu pai nunca duvidou de
minha masculinidade, nem minha mãe e muito menos minha noiva, então o resto
pouco me importa. É essas coisas que me pergunto: somos animais racionais ou
escravos de um pensamento social só para sermos aceitos?
O filosofo Bauman diz que a sociedade hoje colocou seus
valores como valores líquido, hoje gosto amanhã não sei, hoje sinto amor amanhã
talvez, como o ser humano com tanta informação ficou um animal sem sentimento,
sem nada a acreditar. Esse acreditar não é o acreditar alimentando ilusões e
conceitos populares, esse acreditar vem do colocar a moral de lado e analisar
nas profundezas o que seria a resposta da Tatá, por que ela não pode ser uma
podadora? Daí vamos muito mais ao longe: por que devo aceitar que uma funkeira
que canta “beijinho no ombro”, tenha o direito de ser chamada de “grande
pensadora contemporânea”? A resposta está com a Tatá que nem aprendeu a ler e
já quer ser “puta”, porque não estamos preparando a juventude a pensar por si
só, não pode ser considerada porque não se tem uma linha de raciocínio num “beijinho
do ombro” e o jeito vulgar de ser mulher objeto. Ou desse jeito a mulher vai
ser mais independente e não vai ser objeto de qualquer forma?
Simone de Beauvoir dizia em sua obra mor, O Segundo
Sexo, que a mulher não nascia mulher porque ela se torna mulher. Porque a
sociedade molda a mulher como um sexo frágil, um ser que precisa ser defendida,
precisa ser cuidada. Por esses moldes que Beauvoir disse que a mulher não é um
ser formado a partir dela e sim a partir do que o meio onde ela vive determina,
nunca ela pode ser ela mesma, nunca ela pode seguir sua própria natureza.
Afinal a mulher que fez Adão comer o fruto do conhecimento e fez dele um
“pecador”e não, o próprio homem fez a escolha de comer o fruto. Vimos como a
funkeira se comportou quando foi criticada, como se só a elite tivesse o
interesse de ler um Machado de Assis (olha o que uma Marilena Chauí não faz). Quem
disse que pessoas de classe baixa não lêem Machado de Assis? Se a classe media –
que muitos têm um ódio freudiano dela – tem seus preconceitos, a classe baixa também
tem os seus como esse, que só a elite pode ser culta, pode ler Machado de
Assis. Assim na estamos indo contra o sistema, estamos indo a favor do sistema,
pois quanto mais ignorante, mais caminho livre para eles fazerem o que
quiserem.
Quando chegamos a liberdade chegamos a Tatá, não estamos
preparando as crianças para uma liberdade verdadeira, estamos criando as nossas
crianças para a liberdade que o poder quer. O poder quer cada vez pessoas
ignorantes, o poder quer mais bagunça e modos de alienação, o governo não quer
ordem, porque ordem quer dizer união e união quer dizer cobrança. Enquanto professores
de filosofia não deixarem os alunos pensarem, enquanto os professores de
filosofia não deixarem as polemicas e ensinarem a pensar e a enxergar o que
realmente é um pensamento, quem sabe, uma Tatá não queira ser “puta” induzida.
Amauri Nolasco Sanches Junior – filósofo
O vídeo que mostra a realidade da educação no país

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