quinta-feira, abril 10, 2014

Grandes pensadores do Funk







Em tamanha relatividade o que é ou não pensador, fico estarrecido que a funkeira Valesca Popozuda foi chamada de “a grande pensadora contemporânea”. Irônico ou não, é uma coisa para se pensar no meio de tanta falta cultural que temos em nosso país, porque passamos por uma grande crise no modo de pensar, porque pensar ficou obsoleto. Na minha opinião quem deveria sortir todo o credito de ser uma futura pensadora é a pequena Tatá que numa simples resposta sintetizou toda a sociedade contemporânea em um resumo simples, ela quer ser “puta”. Por que ela quer ser “puta”? É provável que ela nem saiba o que é “puta”, pois deve ter ouvido de algum lugar, mas as televisões e os meios inúmeros de comunicação estão ai para ensiná-la e quem sabe ela queira ser ou não “puta”.

O termo “puta” vem do latim e quer dizer “poda” por causa da deusa menor da agricultura que no tempo da poda das arvores, suas sacerdotisas celebravam com um bacanal e até se prostituíam. É bem provável que por isso o termo moderno para as prostitutas seja “puta”, mas seria muito engraçado chamar uma prostituta de “poda” e até assustador. Podar o que do homem? Nada demais não? Mas Tatá muito provavelmente está dizendo no seu significado moderno, seu significado da prostituta que se prostitui porque não sabe fazer nada e não vamos ser hipócritas, muitas vezes não quer fazer nada. Igual jogador de futebol, é fácil, é rápido, é pratico e não precisa de curso, não precisa anos sentado numa sala de aula aguentando professor e depois aguentado chefe (algumas tem cafetão). Nunca fui num prostíbulo porque nunca achei interessante ir, nunca aceitei essa idéia machista que homem deve ir ao prostíbulo provar para os outros que é homem. Aliás, meu pai nunca duvidou de minha masculinidade, nem minha mãe e muito menos minha noiva, então o resto pouco me importa. É essas coisas que me pergunto: somos animais racionais ou escravos de um pensamento social só para sermos aceitos?

O filosofo Bauman diz que a sociedade hoje colocou seus valores como valores líquido, hoje gosto amanhã não sei, hoje sinto amor amanhã talvez, como o ser humano com tanta informação ficou um animal sem sentimento, sem nada a acreditar. Esse acreditar não é o acreditar alimentando ilusões e conceitos populares, esse acreditar vem do colocar a moral de lado e analisar nas profundezas o que seria a resposta da Tatá, por que ela não pode ser uma podadora? Daí vamos muito mais ao longe: por que devo aceitar que uma funkeira que canta “beijinho no ombro”, tenha o direito de ser chamada de “grande pensadora contemporânea”? A resposta está com a Tatá que nem aprendeu a ler e já quer ser “puta”, porque não estamos preparando a juventude a pensar por si só, não pode ser considerada porque não se tem uma linha de raciocínio num “beijinho do ombro” e o jeito vulgar de ser mulher objeto. Ou desse jeito a mulher vai ser mais independente e não vai ser objeto de qualquer forma?

Simone de Beauvoir dizia em sua obra mor, O Segundo Sexo, que a mulher não nascia mulher porque ela se torna mulher. Porque a sociedade molda a mulher como um sexo frágil, um ser que precisa ser defendida, precisa ser cuidada. Por esses moldes que Beauvoir disse que a mulher não é um ser formado a partir dela e sim a partir do que o meio onde ela vive determina, nunca ela pode ser ela mesma, nunca ela pode seguir sua própria natureza. Afinal a mulher que fez Adão comer o fruto do conhecimento e fez dele um “pecador”e não, o próprio homem fez a escolha de comer o fruto. Vimos como a funkeira se comportou quando foi criticada, como se só a elite tivesse o interesse de ler um Machado de Assis (olha o que uma Marilena Chauí não faz). Quem disse que pessoas de classe baixa não lêem Machado de Assis? Se a classe media – que muitos têm um ódio freudiano dela – tem seus preconceitos, a classe baixa também tem os seus como esse, que só a elite pode ser culta, pode ler Machado de Assis. Assim na estamos indo contra o sistema, estamos indo a favor do sistema, pois quanto mais ignorante, mais caminho livre para eles fazerem o que quiserem.

Quando chegamos a liberdade chegamos a Tatá, não estamos preparando as crianças para uma liberdade verdadeira, estamos criando as nossas crianças para a liberdade que o poder quer. O poder quer cada vez pessoas ignorantes, o poder quer mais bagunça e modos de alienação, o governo não quer ordem, porque ordem quer dizer união e união quer dizer cobrança. Enquanto professores de filosofia não deixarem os alunos pensarem, enquanto os professores de filosofia não deixarem as polemicas e ensinarem a pensar e a enxergar o que realmente é um pensamento, quem sabe, uma Tatá não queira ser “puta” induzida.

Amauri Nolasco Sanches Junior – filósofo


vídeo que mostra a realidade da educação no país


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