terça-feira, abril 08, 2014

Os jedis na Matrix






Muitos não entendem os filmes, as tramas cinematográficas quando contêm um pouco de filosofia. Realmente o grande publico não tem o costume de pensar, ouvem uma musica sem entender a letra, vem uma imagem sem entender seu significado, vão a alguma religião sem nem ao menos entender o que tudo ali significa. A grande maioria não entende nem ao menos o cristianismo em sua essência, não passiva de aceitar tudo que lhe dizem ou fazem,  mas não se conformar com a vidinha medíocre que se leva. Será que isso que mostra os dois filmes? Vamos primeiro definir o que é filosofia para entender que situações filosóficas podemos tirar das duas obras cinematográficas.

Segundo o professor Miguel Reale, filosofia na sua essência é a analise dos valores de tudo, do valor não de “valorizar” como mercadoria, mas  valorizar segundo as culturas e tudo que temos de valor como conceito. Quando dizemos que Tales disse que tudo apareceu da água, então podemos dizer que o valor que  a água tem aos seres vivos, não é o elemento em si, mas o símbolo em si mesmo. A filosofia analisa em si mesmo o simbolismo de tudo que contem o mundo e as culturas em si mesmo, não é a coisa que é importante, mas o simbolismo daquilo que representa em nossas vidas e pensamentos. Quando dizemos que uma obra é filosófica é o simbolismo que aquilo tem dentro da cultura que são importantes dentro da analise, que o processo de auto avaliar aquilo como o autor quis passar, é o processo critico daquilo de fato; não uma critica vulgar de julgamento, mas uma critica de analise de um meio para se chegar em um fim. Por isso é importante analisarmos tudo, não por trazer uma ficção para  realidade, mas para tirar a realidade a um artificialismo de ficção que estamos vivendo hoje; as tecnologias ao invés de trazer o ser humano para um maior conhecimento, pela informações que trazem com o advento da internet, esta “emburrecendo” o ser humano alienando, ou melhor, o ser humano se auto alienou por medo a mudança. Quando vimos as culturas gregas antigas, as culturas egípcias antigas, até mesmo as romanas, vamos ver pensamentos muito mais profundos do que hoje, ficamos seres humanos bélicos alienados; ao mesmo tempo que o ser humano pôs em pratica a tão sonhada globalização, as nações que eram hegemônicas antes disso não querem perder, ficam construindo inimigos que não existem, ficam construindo imagens muito mais de ficção do que os próprios filmes e essa analise que temos que fazer até conosco mesmo.

Os dois filmes mostram uma coisa básica para qualquer estudioso de psicologia e filosofia, o ser humano tem medo da mudança, minha analise é tão profunda que eu penso que Anakin mesmo sendo Darth Vader foi o jedi mais corajoso de todos. Por quê? Ele não teve medo de mudar e analisar a sua vida, se entregou ao medo até extinguir e salvar seu filho Luke, não teve medo de deixar o jediismo. Na verdade, os jedis eram conformistas, eram o que podemos chamar de religiosos ortodoxos que se o poder dar o que querem como conforto e prestigio, eles dão o que o poder quer que é a ignorância e a alienação. Por isso que as doutrinas religiosas profundas, como as esotéricas, espiritualistas, espíritas e etc, são tão combatidas e criticadas, porque o povo quer se enganar, eles não querem analisar por si mesmos. Os jedis na verdade estão na Matrix da arrogância de achar que o conhecimento da “Força” somente pertence a eles, eles são os grandes guardiões desses conhecimentos e da Republica intergaláctica.   Quem tem o conhecimento e não analisa esse conhecimento, nem sempre fica livre da alienação, porque se auto aliena. Nós se auto alienamos quando vimos que tudo que estávamos acostumados a viver e acreditar, não existe mais, os valores de tempos atrás não valem para com agora. As mães antigamente valorizavam os filhos homens por serem eles futuros provedores da suas famílias e hoje, os direitos ficaram iguais, tanto as mulheres quanto os homens trabalham e podem ser provedores; mas algumas mães tratam seus filhos como “senhorzinhos” e ficam tão mimados que acham que podem fazer o que quiser até mesmo delitos e coisas afins. Então esse tipo de valor, não existe mais e com isso, surgem novos seres que não sabem o certo do errado, não que exista, mas até quando minha liberdade permite sem agredir a liberdade do outrem.

Talvez a idéia da “Matrix” é – como o nome mesmo diz – a matriz de toda ideologia, que os reprimidos se tornam opressores. Os dois filmes tratam isso, tanto os rebeldes Sisth em Guerra nas Estrelas, tanto no “Matrix”. Se assistirmos o Animatrix, vamos ver que as maquinas foram oprimidas pelos seres humanos pelo medo de não saberem o que elas eram capazes, as maquinas rejeitadas, se tornam uma nação e até quiseram ter paz com os humanos; mas esses por medo não quiseram, então começam uma guerra contra essa nação e cortaram sua fonte de energia que era a solar. Resumindo a historia, com o poderio muito maior das maquinas, a nação delas ganham a guerra e com isso é construída uma Matriz para sugar dos seres humanos energia para manter todo um império maquinário no mundo. Esse filme é reprisado, pois inúmeros teóricos expuseram isso, os oprimidos sempre se tornam se ganham, opressores. O comunismo da Rússia que dizia ser um governo do protariado mataram muito mais do que o nazismo e a santa inquisição juntos, mas também o capitalismo no seu modo selvagem, mata também de formas veladas e pouco éticas. No fim chegamos a conclusão que tudo é uma coisa só que cada ser humano pode e deve fazer as coisas por si mesmo, toda ideologia política são todas iguais. Visa somente um objetivo, o poder e para isso tem que iludir a grande maioria, tanto é assim, que ideologicamente os dois filmes tratam de rebeldes maquinas que não tem escolhas a não ser seguir seus lideres.

Podemos também analisar no ponto das religiões, pois hoje em dia não podemos afirmar que realmente elas religam o que é humano e o que é divino. Em toda a história humana, sempre a maioria esperou um “messias” para salvar um povo ou uma nação, seria um escolhido para a grande rebelião que pode mudar tudo todos os pensamentos. Tivemos lideres, vamos chamar assim, que mostraram a humanidade como agir de forma ética e não agredir, pois se agredimos seremos agredidos. Outro aspecto que vimos muito nesses filmes e de outros é que o vilão tem a aparência do herói, ou seja, essa analogia  mostra que todo os seres humanos tem os dois lados; no Guerras nas Estrelas, todos pensam que o outro lado de Anakin é os jedis ou Luke, não é não, é Padmé Amidala que tem a forma racional masculina (Anakin) e a forma sentimental feminina (Padme). No filme Matrix, o outro lado de Neo é o próprio sistema, ou seja, o “engenheiro” que projetou a Matrix deu a dica, pois Neo era o quinto de sucessão para re-configurar  a Matrix. Os “messias” são apenas uma reconfiguração de um sistema de cinco mil anos, lembramos que no filme o “engenheiro” diz o quinto e a historia da civilização remontam vulgarmente, cinco mil anos dês das cidades mesopotâmicas, babilônicas e egípcias.

Para entender o que o “engenheiro” disse, primeiro temos que entender como funciona um hardware de computador e logo depois, em segundo lugar, temos que entender o que é o sistema hierárquico que comanda a humanidade por tanto tempo. O micro computador funciona como código fonte, ou seja, todo funcionamento depende desses códigos que faz o programa se materializarem; por incrível que pareça os códigos são apenas dois, o 0 e o 1, então cada programa fica “01001...”.  Cada um desses arquétipos numéricos fazem símbolos que nos ajudam a diferenciar, é um processo cognitivo. O computador constrói uma sequencia para criar cada figura, pois essa sequencia que irá fazer os movimentos ou mudar e colocar alguma coisa. Enfim, dentro dos inúmeros caracteres que contem um hardware, somente dois números valem como código. O sistema hierárquico humano não  é muito diferente, existe dois códigos que movem a “vontade” de se manter entre os “maiores”: um é o poder e o outro é o outro é o bem material.

Vamos começar com o “Poder” que move milhões de seres humanos a fome e a lutar em guerras por ideais que não são deles. O poder levou ao ser humano a criar varias situações para controlar a grande “massa”, sendo pelo medo ou pelo hipnotismo de colocar esperanças e uma vida “melhor”. Não é isso que vimos no filme? O poder se realiza com a hierarquização, porque se criou meios de conhecimentos e ficamos a mercê de sistemas que foram construidos graças a esse conhecimentos. Não condenamos o conhecimento que nada mais é do que a informação - que o universo é constituido - mas os meios que se usou essa informação. O problema não é os Sisths tomarem a República, mas a liberdade que isso evolve, guerras ideológicas que só visam o poder. Toda a saga gira em torno do poder, tanto no Guerra nas Estrelas, quanto o Matrix. Mas será que algum dia teremos a liberdade? Liberdade é muito mais complexo do que pensamos, tem a ver com as escolhas que fazemos e não o que nos impõem, até mesmo, o conceito de liberdade. A libertação não é uma doutrina, não pode ser ensinada ou buscada por meios externos. Mas a liberdade é algo subjetivo, algo que se constrói a partir do conhecer a si mesmo, sem mestres, sem algo para se "apoiar". No filmes - os dois - havia ainda um apoio a um mestre, não houve um aprendizado puro, onde não havia algum mestre. Onde afinal, está a liberdade?

Houve uma ruptura, tanto o Neo (Matrix), tanto o Anakin (Stars Wars), quando suas "animas" saem de cena. Há uma uma analogia muito forte com a evolução do ser no limiar da vida, porque o que nos prende é os valores que nos fazem nos apegar. No Guerra nas Estrelas, Anakin se apega a mãe e se culpa por deixar - la e os bandidos pega-la, depois se apegou a Pamdme que o faz ir para o lado negro para protegê - la. No Matrix, Neo se apega a idéia que não é o "escolhido", depois se apegou a Trinity (seria as três doutrina mundanas) e seu amor por ela, quando ela morreu, enfrentou o vírus da Matrix e também  morreu. A Trinity só é seu alter-ego, seu apego ao mundo, seu ego em sentimento do apego e fez disso, um empecilho para enfrentar seu medo. Tanto ele (Neo), quanto Anakin, ficam cegos porque a visão de um mundo que nos faz sofrer é bloqueado, ficam na escuridão. Vale lembrar que os Oráculo antigos eram cegos, porque se acreditavam que poderiam enxergar com a alma, pois os olhos físicos olhavam a ilusão.  A consciência é apenas o valor que damos a alguma coisa ou alguma situação, na verdade, é apenas sua leitura a aquela situação. A consciência se dará a partir do que acreditamos ser verdade, não é um meio para se alcançar, mas é um meio para se medir valores. O valor de uma pessoa amada é o  que acreditamos ser importante nessa pessoa amada, o que ela faz com esse amor e o que faz ama-la. Nos amores não correspondidos, há um bloqueio da nossa real visão, ficamos iludidos por um ideal, um ideal que não nos faz feliz. Geralmente, esses não fazem amores verdadeiros e só iludem. Anakin fez do seus dois maiores amores em algo que dependece sua felicidade, mas a sua felicidade era descobrir a FORÇA nele, no seu próprio ser que faria dele um jedi. Na verdade - como disse acima - a saga inteira trata de poder, porque sempre queremos ter razão. Mas nem sempre, a razão é realmente o "logos" que procuramos.

O logos é grego antigo e quer dizer razão, mas o grego antigo tinha outra perspectiva e tinha outra visão até mesmo do ethos. A visão era uma razão instintiva, sem racionalidades imperfeitas e sim, um logos superior. Na minha visão, a filosofia apenas colocou o logos em seu devido lugar já que a racionalidade estava em contramão com o que era superior, era divino e importante. A força  é a energia vital que as religiões cristãs dizem ser o Espírito Santo, que muitas religiões dizem ser igni que em latim quer dizer fogo, em sânscrito é a divindade agni que quer dizer fogo. O fogo é a energia que se consolida, a energia da criação veio do fogo e da energia primordial da vontade. Discípulo João diz que o logos fica a direita ao lado de Deus, ele é a razão que se fez carne e através dele nós aprendemos o caminho do divino, mas logos é a vontade de criar. Milhares de manifestações biológicas de trilhões de formas devem ter se consolidado no universo, o ser humano apenas é mais uma, uma que ainda está primitivamente descobrindo essa energia que é o poder mais poderoso do universo. Talvez – porque não estamos na mente de George Lucas – os Siths são a forma do lado escuro porque se prendem ao material, ao que se dar pelo lado da matéria (tanto é que todos os discípulos de Lorde Sinous eram partes robóticas, até mesmo Darth Vader, o mais poderoso). Ou a parte reptiliana humana que tem a ver com nosso lado animal, nosso ódio. Os jedis, como disse acima, são a FORÇA do lado da luz, do esclarecimento, do lado espiritual verdadeiro. Mas começaram a serem arrogantes e perderam a republica, porque não haveria outra solução a não ser  entregar o conhecimento, ter o que se espera ter da FORÇA. Anakin era o mais poderoso, o mais capaz, o escolhido que teve que ir para equilibrar a FORÇA e restaurar a paz do universo e a republica intergaláctica. Mas ele não o fez? Ele era o escolhido e mesmo sendo do lado negro – depois que jogou o Lord Sideos ele morre – ele restaurou o equilíbrio matando o imperador. Mas antes de morrer diz ao jovem Luke que não tinha escolha e Luke restaurou a ordem Jedi, talvez, com outra visão. A morte é o despertar do mundo para um novo começo, tanto é assim, que sempre os escolhidos morrem após deixarem suas mensagens como nos dois filmes, os dois morreram após equilibrar toda a realidade. Toda a plenitude da verdadeira face do fenômeno, pois antes não temos a consciência daquilo que é o objeto do nosso objetivo. A morte de Jesus, por exemplo, simboliza a real natureza dessa força e que somente foi um despertar para outro estado da realidade.

Mas o que é a realidade? Tudo aquilo que entendemos e lemos como objeto é uma das realidades, mas existem outras que ainda não entendemos, existem até mesmo outros seres com outra perspectiva dessa realidade. Mas ainda colocamos as coisas em uma realidade que enxergamos em nosso próprio bojo de crenças e não vimos que a realidade somos nós e essa realidade independe nas coisas externas. Os escolhidos sabiam que teriam que escolher e teriam que sacrificar – num modo muito profundo – não num modo de salvar, mas num modo de mostrar o caminho sábio e não o caminho mais fácil, o caminho que os grandes nos fazem trilhar. Anakin fez o que tinha quem fazer, o resto não nos interessa, porque para sermos uma brilhante estrela, tenho que passar por uma odiosa escuridão.


Amauri Nolasco Sanches Junior – Filósofo 

Nenhum comentário: