quarta-feira, junho 05, 2024

ESCOLAS MILITARES E A CRISE NA EDUCAÇÃO

 





“É no conhecimento que existe uma chance de libertação”.

(Leandro Karnal)

 

Amauri Nolasco Sanches Júnior

 

Sem dúvida nenhuma, as pessoas romantizam os militares (como romantizam tudo), porque somos um povo imperialista por sermos latinos. A questão de países latinos – como aconteceu depois que a França teve sua revolução lá – sempre flertaram com o imperialismo como se existisse uma remota esperança de se ter um império unificado tipo romano. Só que para unificar o império, exércitos romanos matavam povos inteiros e escravizavam os que sobreviviam, e faziam todo tipo de barbárie. Mas, mesmo com povos como os romanos, o exército era exercido como uma profissão (como colocou Platão em a República), onde teria um dom e esse dom sempre desembocava em luta para defender Roma.

As escolas não deveriam ficar no meio dessa briga ideológica pelo simples fato delas existirem para ensinarem matérias que vão ser uteis em sociedade, e que, sem dúvida nenhuma – como não teve nenhuma reforma escolar – ficou defasada. Daí, como escrevi em um outro texto sobre educação e escolarização, se confunde educação (que deve ser visto na esfera privada) e a escolarização (na esfera pública), como se a escola tivesse obrigação de educar. É evidente que isso já ficou na nossa cultura por causa, até mesmo, da própria mídia que mistificou a escola como uma grande educadora. E a esquerda por motivos óbvios. Se fomos verificar questões etimológicas da palavra “educação”, o latim “educare” tem uma conotação muito mais moral no sentido de levar a criança para uma certa realidade, no furor das morais sociais sem se prender em morais ideológicas.

A escolarização é o sair da criança no seio da família e viver na sociedade com múltiplos educados com seus própria valores ou crianças que os pais não legaram nenhum valor, só legou a professora essa tarefa. A pergunta que fica é: a professora é detentora dessa tarefa ou houve uma distorção da questão educativa? Essa distorção não foi, exatamente, por causa de um maior conhecimento dessa palavra? É curioso a questão dos termos, porque isso tem a ver em um conjunto de contextos que vão se criando a partir de uma cultura. Por exemplo, o educare romano não tem a ver o que tem a ver com educare moderno (que no português, se tornou educar), pois mostrar a realidade em um contexto romano era mostrar um império e a grandeza de ser um romano. Modernamente, educare tem a ver com colocar a criança dentro da sociedade para ser útil e ser “escrava” em uma moral social. O educare na antiguidade era de meninos e era só para certas classes políticas ou sociais (que hoje chamamos de elite), na era moderna o educare se torna algo para todos porque todos devem produzir para a sociedade. Há um novo modelo de educare não baseado em pertencer a um império, como romano, mas, em ser um modelo social de um poder no corpo do outro pelo discurso moral. Pessoas com deficiência, como eu, sabem disso.

Esse é cerne do problema: um é o corpo (que sempre foi o objeto de dominação humana) e outra é a psique (como modo de convencer o ser humano do seu discurso). O educare surge para demonstrar as crianças, que além da vida e de onde nasceram estava uma realidade além daquilo, o educare moderno vai ser dominado pelo corpo (não que antigamente não era), porque a utilidade era e é, essencial. Uma foi a dominação da sexualidade e seus meios de acontecer através da religiosidade, porque o cristianismo – que nada contêm nos 4 evangelhos dos ensinamentos de Jesus – tendeu em ser uma religião (aqui ponho como uma religiosidade material) que educava o ser humano ensinando que Deus seria um tirano, um maníaco assassino e ciumento e se não fizesse o que a sociedade determinou, era pecado. O “pecado” era uma dominação psique do medo, gerando assim, algo como um medo de atos desconhecidos e que se quebra com a modernidade. O educare moderno vai educar a sexualidade normalizando-a conforme, ainda, as crenças vigentes para agradar comerciantes protestantes que começavam a questionar o catolicismo.

O corpo passa ser um ente corruptível que é frágil – graças ao poder na “carne” – e que vai ser sempre levado ao pecado. A alma, por sua vez, é incorruptível e é uma fagulha da divindade de Deus e vai voltar dormir debaixo do trono de ouro até o juízo final e a luta contra o mal. Bastante parecida com as crenças dos nórdicos, onde Odin em seu castelo chamado Vanhalla, ordena que as Walkirias recolham os guerreiros que morrem nas guerras, a dormirem lá até a guerra com a grande serpente e o crepúsculo dos deuses acontece. O educare dentro da psique é que vão ser arrebatados por seguirem preceitos sociais de moral (muitas vezes, moralismo) em que, a dominação acontece, quando há intenção de “salvar o mundo”.

Vamos ver que o educare que era uma coisa intelectual e poderia inserir (mesmo que este “inserir” era só uma classe social), passa a ser um controle de utilização do corpo como modelo de produção e que o trabalho, que deve ser feito, significa o ser humano. Ser digno era forma perfeita de ser dominado pela religião (ou você era apostata, ou você era pecador e merecia ser queimado) e, ser dominado pela moral vigente, com medo de ser linchado. No Brasil, assim como em outras partes do mundo, se passou 300 anos com o educare religioso, onde os indígenas tinham que ver a realidade do mundo verdadeiro (leia-se, europeu).  Dai podemos indagar: o que é verdadeiro ou não? O que pode ser considerado verdadeiro ou não? Pois, o educare passa a ser um desenvolvido discurso entre as crenças dominantes e as crenças que se rebelam dessas crenças dominantes.

Chegamos a questão da romantização das Forças Armadas graças as crenças “golpistas” de 64 que eles iriam livrar o Brasil do comunismo, onde restaurariam a ordem e empunhariam o progresso. Será que isso seria verdade? porque, em teoria, a questão das Forças Armadas era e é, uma questão de uma ideia errada de forças reguladoras sociais como se fosse uma “polícia política” punindo governos que não se adequam a uma cultura. porém, sabemos muito bem, que as Forças Armadas asseguram nossa soberania de ataques externos (de todo tipo, até extraterrestre) e não podem ser forças políticas, pois, as Forças Armadas não sabem governar e foram um desastre nos 20 anos de ditadura militar. Se fomos bastante rigorosos, as Forças Armadas são uma das muitas instituições do Estado como poder de moderação e guarda. O problema – como toda problemática brasileira – é que, como já disse acima, há crenças que se rebelam das crenças dominantes como uma ideologia para adestrar a psique de uma parte da sociedade. O sistema (como na Matrix do filme), tende a querer se reprogramar para se livrar de possíveis “bugs” que seriam ideias novas.

Como o discurso que o rock é da esquerda (como se a esquerda política fosse roqueira, que sabemos, que são mpbistas), levando a questão de uma forma binaria. O rock em si é contracultura e como tal, tendem a ir contra as forças vigentes que estão ao poder e poderemos ir bem mais longe dizendo que, a esquerda parou nos anos 60 e ali ficou como tudo no Brasil está atrasado (como o Lula querer fazer carro popular que era politica dos anos 70). O educare passa a ser defasado quando a grade de ensino se enche como interesses vigentes da elite empresarial e quando pais darão valores de “escravização” de uma parte da sociedade, a doutrinação esta em não querer críticas. Na essência, nosso povo não gosta de crítica, e por isso, não gosta de um educare crítico e que não reflete sobre a realidade no qual se vive.

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