“é mais fácil imaginar
o fim do mundo do que imaginar o fim do capitalismo”
Fredric Jameson e
Slavoj Zizek
A
saga de George Miller intitulada Mad Max – em um mundo pós-apocalíptico com uma
estética diesel punk – mostra como a frase que esta acima tem a ver com a discussão
da questão entre a saga e a filosofia. Mas a origem do texto tem a ver com um vídeo
do professor Felício Molinari no YouTube intitulado “A Filosofia por trás de
Mad Max” – que, claro, tem muito pouca visualização – onde ele explica, na visão
dele, sobre de um modo filosófico o modo de ver o cenário onde a saga acontece.
De um modo bastante filosófico, concordo em alguns pontos (do petróleo e da água),
outros eu não concordo (como a visão rasa da história como se não houvesse uma
trama por trás do mundo diesel punk da saga).
Outro
professor de filosofia, Vitor Lima, nos alertou de tomar cuidado com a questão nietzschiana
de que tudo tem que ter uma “entre linha”. Como se qualquer obra tem que ter
algo além do que é mostrada. Ora, indo nessa linha, poderemos dizer que a questão
da saga tem a ver hora com um mundo entrando em colapso por causa da guerra fria
(que há dentro dos primeiros filmes) e na sequência, poderíamos dizer que há uma
subsequência que explora outras questões que se valem do mesmo cenário. Muitos
dizem que é um cenário anarcocapitalista (desde a Cúpula do Trovão), onde há forte
critica no modo que a humanidade tem como objeto da sua construção social o petróleo
e depois a água. Porque se fomos bastante rigorosos, no primeiro filme poderia
ser que há elementos anarcocapitalistas, mas temos que entender que o colapso
de uma sociedade é a guerra. Dai entra tanto a filosofia streampunk como seus
derivados.
A questão
é: o que causou o colapso humano que Miller coloca no Mad Max2? A crise do petróleo
que parou várias coisas importantes do capitalismo, como aviões (com as viagens
dos executivos) a geração de energia, o transporte e a estabilidade política. Com
o fim do petróleo, o transporte fica a deriva e não há transporte de alimento e
bens, com isso vem a escassez e a fome. Os protestos geram cada vez mais,
piquetes e revoluções que parariam as fabricas e os recursos públicos iriam mais
para exércitos e policiais para estabilizarem as sociedades. Mas, como é
mostrado no primeiro filme, mesmo com a segurança sendo privada, não seria o
bastante para parar aqueles que querem roubar o combustível. Além disso, o primeiro
filme não mostra bem uma sociedade pós-apocalíptica, mas em colapso que pode
derivar numa cronologia mais rigorosa como pode ter acontecido antes da guerra
nuclear.
Daí
temos que refletir muito além do capitalismo, pois, com a guerra nuclear – onde
boa parte da humanidade morre ou saem das cidades devastadas – e um mundo desértico
e destruído, se passa a valer tudo para sobreviver. Poderemos ver nos filmes
que, questões morais se esfacelam junto com a religião, que não é mencionada em
nenhum momento da saga. Em um termo nietzschiano: o mundo passa a ser niilista.
Ou seja, o que sobreviveram são pessoas animalizadas dentro de um mundo que
ainda tem objetos tecnológicos e podem usar as estradas para saquear. Ou são soldados
contaminados com a radiação e levados a loucura por traumas pós-guerra, como é
mostrado tanto no segundo filme e o último (A Estrada da Fúria).
O terceiro,
mesmo sendo do cenário da saga, nunca foi feito diante da questão da saga em si
mesma. Miller diz em entrevista, que a ideia da Cúpula do Trovão sempre foi um
outro protagonista, o que aconteceu foi pressão do estúdio. Mesmo assim, temos
um cenário de um começo de uma sociedade comercial com energia gerada com bosta
de porco, gerando metano. Por outro lado, tem jovens vivendo remotamente ao que
parece, uma cachoeira, e que seus antepassados que caíram ali em um avião,
teriam encontrado. A história que contam para Max: que houve um clarão e o avião
tem que pousar porque tudo entrou em colapso e o piloto sai para buscar ajuda e
eles pensam que Max é o piloto. Nessa passagem – que é retomada quando eles conseguem
ir para a cidade e contam a mesma saga colocando a parte de Max – mostram como
lendas e mitos poderiam ser criados para dar ao ser humano uma ponta de esperança.
Voltando
ao segundo, Max segue sozinho depois que a sua família morre, mostrando um egoísmo
e um niilismo grande. Colocando como um homem utilitarista quando espera que fugitivos
capturados sobrevivessem, para porventura, ele trocar um deles por combustível para
seu V8. Ele não tenta salvar a mulher de ser violentada e nem morta, pois, o
que interessava para ele era só o combustível. E outras posições morais que
podem ser vistas em Max, como uma pessoa apática com o mundo que levou seus
amores e amigos. Que, poderemos ver no primeiro filme, não esperou morrer. O que
nos resta perguntar: como sabe que morreram? Miller deixa essa lacuna que
sempre pensei que ao se enganar, ele os encontraria ainda na saga.
O que
me levou a escrever esse texto é a ideia de ir mais além do professor Molinari graças
a frase no começo do texto: e se não é um fim do mundo e sim, o fim do capitalismo?
Porque no primeiro filme – pelos carros é no fim da década de 70 – há uma grande
parte de gangs de motoqueiros que assombravam as estradas. Que mostra que não só
as sociedades estavam se colapsando, mas o modo capitalista de ser entrando em
uma era de trevas. A própria saga mostra que não houve tempo em um
desenvolvimento computacional e só há um mundo mecânico usando a técnica como
mais realista. O mundo que se colocou como mecânico e cruel, como a crítica heideggeniana
da tecné ser usada muito mais do que a moral.
A ideia
é bastante simples: o colapso retratado nos filmes não é só um fim do mundo (a
realidade que estamos acostumados), mas o fim do sistema capitalista. Com o
aumento de gangs de motoqueiros – com o fim de governos e o colapso dos meios de
produção pré-guerra – e uma sociedade que esta perdendo a sua estrutura e sua
moralidade, mostra a falha capitalista (vulgo burguesa) de manter a coesão social.
Ou seja, esse cenário nos mostra uma predominância tecnológica mecânica e a ausência
da computação avançada que, poderemos interpretar, como uma critica a dependência
social humana na tecnologia na produção em messa, que seria o elemento base do
capitalismo.
E como
Heidegger entra nessa critica? Ele argumenta que a tecnologia moderna
transforma a natureza em um mero recurso para exploração e que chama de Gestell
(enquadramento). Acreditava que essa abordagem técnica ao mundo nos afasta de
uma relação autêntica com o ser e com a existência. Na saga, essa crítica pode
ser vista na forma como a tecnologia é usada para dominar e controlar, em vez
de promover o bem-estar humano. E se refletimos um pouco: não é isso que anda
acontecendo? O X (ex-Twitter), não é diferente da saga, pois, com as redes
sociais, a humanidade está sendo dominada pela tecnologia com opiniões, desejos
incontroláveis, luxuria e um niilismo moral como se as pessoas esquecem de ser
elas mesmas por likes. Miller acertou o colapso humano, só errou como seria.
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