Amauri Nolasco Sanches
Júnior
Bacharel de Filosofia
“Tudo é vaidade.”
(Eclesiastes 1-2)
Li um artigo da Mirian Goldenberg chamado, <<Como dominar os monstros interiores>> - através de um vídeo do filosofo Paulo Ghiraldelli
Jr mostrando supostos erros da escritora e antropóloga – e ela fala da questão da
filosofia e o estoicismo como se fosse uma autoajuda para viver bem. Ora, vamos
esclarecer uma coisa aqui, nada tenho contra os coachs ou os livros de
autoajuda – que para mim, fica claro serem os sofistas de hoje – e até defendo
que uma leitura inicial, pode ser sim um exercício de hábito de leitura. Já disse
e repito: não sou a favor de uma filosofia não acessível e que eu tenha que ter
pares para fazê-la. Em uma análise mais profunda – como uma crítica nos moldes
kantianos – há de evoluir o modo de filosofar brasileiro e de analisar melhor obras
clássicas não no que achamos, mas achar conceitos que cabem nesse contexto clássico
dessas obras.
Por exemplo, a frase que coloquei ali, onde o autor de Eclesiastes
– que muitos atribuem ao rei Salomão – diz que “tudo é vaidade”, mas, temos que
entender o contexto no que ele disse. O “dizer algo” implica muito na questão das
crenças e valores que trazemos dentro de si e tem muito das questões existenciais
dentro do próprio estoicismo. Porque não pensar, que o rei Salomão não estaria
autoexaminando a si mesmo e dizendo que tudo não passa de uma grande vaidade,
mesmo porque, a questão da existência e das coisas que não podemos dominar
(mesmo o ser humano tentar com a tecnologia), porque os fatos tem a ver com as
circunstancias que ele acontece. Os seres humanos se “envaidecem” com sua ciência
ou teologias etc, como se fosse grande descobertas de um animal acima dos
outros. Em ter inteligência, os cetáceos e os polvos também têm, porque
conseguem comunicar e resolver problemas práticos. E ai? E os animais que
conseguem captar sentimentos ou animais que resolvem certas dificuldades?
Coisas para serem refletidas e não jogadas ao vento. Assim como
não existe explicações fáceis sobre versículos bíblicos – porque devem ser
submetidos a hermenêuticas teológicas – não existem modos de facilitar nem filósofos
clássicos e nem escolas filosóficas dentro da questão da existência. Isso que
Goldemberg diz ser superação de “monstros interiores”, não tem a ver com a
filosofia e nem os filósofos que citou (muito menos os estoicos), mas a
descoberta de um modo de ver dentro da perspectiva da realidade que não podemos
mudar. Como ela perdeu o pai para o câncer, minha mãe também se foi por causa
dele e o que me fez superar foi o modo que eu encarei uma única certeza que temos:
a morte. Um filosofo – muito menos um psicólogo – nunca vai dizer que deveríamos
superar a falta daqueles que amamos e ser autoanalisado, mas, faria a pergunta:
o que é a morte?
Isso mesmo amiguinho...um filósofo não afirmar nada e se
afirmar um ponto, não passa de um coach que já tem uma fórmula pronta (como
alguns sofistas tinham). Não existe essa de “filosofo fisiológico” (sim, estou
refutando o filosofo Pondé), porque afirmações não são de “fisiologia filosófica”,
mesmo porque, a filosofia não é fisiológica e sim, mental. O que Goldemberg faz
é dar justificativas para seu texto dizendo que viu um vídeo no YouTube citando
filósofos que, com certeza, viu um vídeo também. Como os neovikings das redes
sociais – com maquiagem e creme no cabelo – os neoestoicos são apenas pessoas
que viram a filosofia estoica de forma bem superficial dentro daquilo que
entenderam. Como costumo falar, um yoge das redes vão meditar e dizer que
devemos focar no agora, mas o Yoga não é uma autoafirmação de querer ser, ou você
faz os exercícios e a prática yogue, ou você é apenas “modinha” (como dizem por
ai). Aliás, os exercícios são uma parte inicial para chegar à meditação.
Como o Yoga, a Filosofia, não pode ser “pincelada” em um vídeo
do YouTube onde só a superfície é checada. E falando em estoicismo, seu
fundador Zenão de Citio, depois de um naufrágio de um navio, ele se encontra em
Atenas onde se deparou com um livreiro e lendo “Memorabilia” de Xenofonte e se
encanta. Aí temos duas situações que hoje não se aguentaria: um naufrágio e um
encontro com obra filosófica. Logo depois, perguntou ao livreiro onde poderia
encontrar homens como Sócrates, o homem mostrou o cínico Crates de Tebas, que
estava passando por ali. Foi discípulo de Crates, mas abandonou o mestre por não
se adaptar ao modo cínico. E consultando o Oraculo – sim, filósofos consultavam
Oráculos – e perguntando como viver, provavelmente dentro do modo filosófico, o
oraculo respondeu “igualar-se aos mortos”. Ele começa a estudar os filósofos antigos
e começa a ensinar no Pórtico Pintado (ou Stoá Poikile) de Atenas e assim, se
chama estoicos.
Eu queria
chegar no “igualar-se aos mortos” que quer dizer o estudo dos clássicos e não olhar
superficialmente um item só. Lembramos que Zenão para ensinar teve que aprender
e ele se encanta com Sócrates, porque a filosofia como conhecemos começa com Sócrates.
Só que nem “uma vida não examinada, não vale ser vivida” ou “conhece-te a ti
mesmo” não é uma introspecção,
porque os gregos não tinham ideia da subjetividade moderno, eles viam a
realidade como um todo (cosmos). Exame da vida
é a felicidade com o todo social e aceitar a realidade, como os estoicos
seguiram ao aceitar o destino (amor fati). Não largar o Lexotan, mas aceitar o
Lexotan na sua vida. Do mesmo modo, não tirar a dor da gente, mas senti-la com
força, para passar rápido. Hoje as pessoas não querem sofrer, não querem sentir
dor, não querem ser frustradas ou passar por lutos. Mas, vamos ter que passar por vários.
Nenhum comentário:
Postar um comentário