segunda-feira, maio 27, 2024

O ESTOICISMO DOS COACHs

 


Amauri Nolasco Sanches Júnior 

Bacharel de Filosofia

 

“Tudo é vaidade.”

(Eclesiastes 1-2)

 

Li um artigo da Mirian Goldenberg chamado, <<Como dominar os monstros interiores>> - através de um vídeo do filosofo Paulo Ghiraldelli Jr mostrando supostos erros da escritora e antropóloga – e ela fala da questão da filosofia e o estoicismo como se fosse uma autoajuda para viver bem. Ora, vamos esclarecer uma coisa aqui, nada tenho contra os coachs ou os livros de autoajuda – que para mim, fica claro serem os sofistas de hoje – e até defendo que uma leitura inicial, pode ser sim um exercício de hábito de leitura. Já disse e repito: não sou a favor de uma filosofia não acessível e que eu tenha que ter pares para fazê-la. Em uma análise mais profunda – como uma crítica nos moldes kantianos – há de evoluir o modo de filosofar brasileiro e de analisar melhor obras clássicas não no que achamos, mas achar conceitos que cabem nesse contexto clássico dessas obras.

Por exemplo, a frase que coloquei ali, onde o autor de Eclesiastes – que muitos atribuem ao rei Salomão – diz que “tudo é vaidade”, mas, temos que entender o contexto no que ele disse. O “dizer algo” implica muito na questão das crenças e valores que trazemos dentro de si e tem muito das questões existenciais dentro do próprio estoicismo. Porque não pensar, que o rei Salomão não estaria autoexaminando a si mesmo e dizendo que tudo não passa de uma grande vaidade, mesmo porque, a questão da existência e das coisas que não podemos dominar (mesmo o ser humano tentar com a tecnologia), porque os fatos tem a ver com as circunstancias que ele acontece. Os seres humanos se “envaidecem” com sua ciência ou teologias etc, como se fosse grande descobertas de um animal acima dos outros. Em ter inteligência, os cetáceos e os polvos também têm, porque conseguem comunicar e resolver problemas práticos. E ai? E os animais que conseguem captar sentimentos ou animais que resolvem certas dificuldades?

Coisas para serem refletidas e não jogadas ao vento. Assim como não existe explicações fáceis sobre versículos bíblicos – porque devem ser submetidos a hermenêuticas teológicas – não existem modos de facilitar nem filósofos clássicos e nem escolas filosóficas dentro da questão da existência. Isso que Goldemberg diz ser superação de “monstros interiores”, não tem a ver com a filosofia e nem os filósofos que citou (muito menos os estoicos), mas a descoberta de um modo de ver dentro da perspectiva da realidade que não podemos mudar. Como ela perdeu o pai para o câncer, minha mãe também se foi por causa dele e o que me fez superar foi o modo que eu encarei uma única certeza que temos: a morte. Um filosofo – muito menos um psicólogo – nunca vai dizer que deveríamos superar a falta daqueles que amamos e ser autoanalisado, mas, faria a pergunta: o que é a morte?

Isso mesmo amiguinho...um filósofo não afirmar nada e se afirmar um ponto, não passa de um coach que já tem uma fórmula pronta (como alguns sofistas tinham). Não existe essa de “filosofo fisiológico” (sim, estou refutando o filosofo Pondé), porque afirmações não são de “fisiologia filosófica”, mesmo porque, a filosofia não é fisiológica e sim, mental. O que Goldemberg faz é dar justificativas para seu texto dizendo que viu um vídeo no YouTube citando filósofos que, com certeza, viu um vídeo também. Como os neovikings das redes sociais – com maquiagem e creme no cabelo – os neoestoicos são apenas pessoas que viram a filosofia estoica de forma bem superficial dentro daquilo que entenderam. Como costumo falar, um yoge das redes vão meditar e dizer que devemos focar no agora, mas o Yoga não é uma autoafirmação de querer ser, ou você faz os exercícios e a prática yogue, ou você é apenas “modinha” (como dizem por ai). Aliás, os exercícios são uma parte inicial para chegar à meditação.

Como o Yoga, a Filosofia, não pode ser “pincelada” em um vídeo do YouTube onde só a superfície é checada. E falando em estoicismo, seu fundador Zenão de Citio, depois de um naufrágio de um navio, ele se encontra em Atenas onde se deparou com um livreiro e lendo “Memorabilia” de Xenofonte e se encanta. Aí temos duas situações que hoje não se aguentaria: um naufrágio e um encontro com obra filosófica. Logo depois, perguntou ao livreiro onde poderia encontrar homens como Sócrates, o homem mostrou o cínico Crates de Tebas, que estava passando por ali. Foi discípulo de Crates, mas abandonou o mestre por não se adaptar ao modo cínico. E consultando o Oraculo – sim, filósofos consultavam Oráculos – e perguntando como viver, provavelmente dentro do modo filosófico, o oraculo respondeu “igualar-se aos mortos”. Ele começa a estudar os filósofos antigos e começa a ensinar no Pórtico Pintado (ou Stoá Poikile) de Atenas e assim, se chama estoicos.

Eu queria chegar no “igualar-se aos mortos” que quer dizer o estudo dos clássicos e não olhar superficialmente um item só. Lembramos que Zenão para ensinar teve que aprender e ele se encanta com Sócrates, porque a filosofia como conhecemos começa com Sócrates. Só que nem “uma vida não examinada, não vale ser vivida” ou “conhece-te a ti mesmo” não é uma introspecção, porque os gregos não tinham ideia da subjetividade moderno, eles viam a realidade como um todo (cosmos). Exame da vida  é a felicidade com o todo social e aceitar a realidade, como os estoicos seguiram ao aceitar o destino (amor fati). Não largar o Lexotan, mas aceitar o Lexotan na sua vida. Do mesmo modo, não tirar a dor da gente, mas senti-la com força, para passar rápido. Hoje as pessoas não querem sofrer, não querem sentir dor, não querem ser frustradas ou passar por lutos.  Mas, vamos ter que passar por vários.

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