domingo, maio 26, 2024

A MORTE DE PCDs E O CAPACITISMO BRASILEIRO (FOUCAULT E DELEUZE)

 



Foucault e Deleuze 


Amauri Nolasco Sanches Júnior

 

Habib ainda disse que “20% das vendas de carro é para deficiente físico. O governo podia acabar com deficiente físico e você baixa o preço dos carros em cinco por cento. Você pode baixar a carga porque esses aí não pagam imposto e aí todo mundo ia comprar carro mais barato” (PcD, 2024)

(o texto na integra

 

Essa fala do presidente da Jac Motors do Brasil, Sérgio Habib, mostra a problemática brasileira da questão das pessoas com deficiência e como a sociedade vê as várias questões que abordam essa temática. Nesse blog mesmo, trouxe uma verdade que assola a Europa em abortos de crianças que “podem” nascer com Síndrome de Down. Aí podemos lançar a questão: qual o limite da deficiência? Pois, a “humanidade perfeita” tem um viés de eliminação daquilo que chamamos de eugenia. Todos que estudam história – seriamente – sabe que a teoria da eugenia já foi uma ciência, hoje – pelo menos na teoria – esta classificada como pseudociência. Quando Habib diz que “o governo tem que acabar com o deficiente físico”, ele é refém de uma coisa maior que deve ser classificado de discurso dizendo que “deficientes não são uteis”.

Ora, duas questões devem estar claras antes de entrarmos em Foucault e Deleuze: o que seria utilidade e o que seria deficiência? Primeiro, utilidade tem a ver com aquilo que é útil em uma comunidade ou, num modo geral, aquilo que é útil dentro de uma sociedade em um todo. Ou seja, uma pessoa com deficiência só será útil em uma sociedade quando, ou sofre uma reabilitação dentro de um padrão médico, ou quando participa de forma passiva a tutoração de suas escolhas. Exemplo é que quando olhamos todos os serviços destinados para as pessoas com deficiência, há um sentimento de “fazer favor” as pessoas com deficiência. Assim, a utilidade do corpo “diferente” tem o preço de se tornar invisíveis, se tornar algo secundário para os “atores” sociais terem como atuar dentro de uma sociedade.

Agora a deficiência é uma outra problemática, porque tem a ver com as origens do termo dentro da nossa cultura latina (que está no meu livro de 2015). Deficiência tem duas origens, uma é grega e tem a ver com “síndrome” (conjunto de sintomas) tem sua raiz em “syndromos” que significa “o que corre junto”. O termo se forma por “syn” (junto) e “dromos” (corrida). Ora, mesmo que estava ligada indiretamente com a deficiência por causa das classificações – como a Síndrome de Down – a ideia de sintomas tem a ver com a questão de imobilidade que caracteriza uma deficiência. Já a deficiência tem a ver com o termo latino “deficiens” é uma declinação do verbo “deficiere”. Esse verbo significa “desertar”, “revoltar-se” ou “falhar”. A raiz “de” quer dizer fora, e “facere” quer dizer “fazer” ou “realizar”. Assim sendo, o termo deficiência está relacionado a ausência ou disfunção de uma estrutura psíquica, fisiológica ou anatômica.  

A questão seria: qual o conceito de deficiência? ora, podemos dizer que são pessoas que apresentam algumas limitações dentro da sua capacidade (daí o nome capacitismo) de realizar algumas atividades cotidianas devido a diferenças físicas, sensoriais, intelectuais ou psicossociais. Em um modelo médico, historicamente, esse modelo de deficiência enfatizava as limitações individuais e considerava a deficiência como uma condição patológica. Nesse modelo, o foco estava na “cura” ou na minimização dos sintomas. Já no modelo social de deficiência, mais recentemente, se reconhece que as barreiras sociais, atitudinais e ambientais desempenham um papel fundamental na experiencia das pessoas com deficiência.

Agora temos que entender quais os modos de discursos que se pode dizer, levaram Habib dizer para o “governo acabar com os deficientes físicos” para baratear o carro. E não, não tem a ver com o capitalismo ou a “metafisica da esquerda” chamada, neoliberalismo. Tem a ver o que Foucault chamou de governamentalidade e isso tem a ver com relações de poder e como as instituições moldam os indivíduos. Podemos dizer que, a sua noção de “governamentalidade” envolve uma análise das práticas pelas quais o poder é exercido sobre os sujeitos. Ora, Habib como empresário (que, provavelmente, não estudou administração) é escravo do sistema onde a instituição faz um discurso (através da nossa cultura medievalista positivista), que pessoas com deficiência tem o direito, no máximo, em participar do Teleton. Uma mentalidade que nós devêssemos ser tutelados e devem submeter aos membros sociais “uteis”. Ora, a ideia de Foucault era incluir gestão das populações, a regulação dos corpos e a normalização dos corpos e comportamentos.

No contexto da deficiência, poderíamos dizer ou considerar como políticas públicas, as instituições de saúde e as práticas de inclusão ou exclusão podem afetar as pessoas com deficiência. Foucault nos convida a questionar algumas dessas políticas como manifestações do poder, como acontecia um tempo atras quando pedíamos tratamento nos indicavam a AACD como referência. Como se a instituição “governamentalizasse” uma maneira de pensar medicalista onde só ele poderia nos “curar e dizer o que seria uma deficiência. e isso pode moldar as vidas das pessoas com deficiência capacitadas.

Já Deleuze propõe uma filosofia que valoriza a diferença e a multiplicidade, pois, ele rejeitou que houvesse uma identidade fixa e enfatizou a singularidade de cada sujeito. Assim, poderemos trazer no modo do contexto da deficiência, como uma aplicação a filosofia da diferença para questionar as categorizações tradições. Deleuze nos lembra que não devemos reduzir as pessoas com deficiência em uma única definição, como seria logica a capacidade de ver que cada pessoa com deficiência teria uma característica. Ou seja, cada indivíduo teria sua própria singularidade e experiencia.

Ao analisar a frase de Habib, nem tem sentido você dizer que “o governo deveria acabar com o deficiente físico”, porque cada deficiência tem cada caracterização. Daí, qual “deficiente físico” tem que acabar? Todos ou só aqueles que compram carros?



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