| Foucault e Deleuze |
Amauri Nolasco Sanches
Júnior
Habib
ainda disse que “20% das vendas de carro é para deficiente físico. O governo
podia acabar com deficiente físico e você baixa o preço dos carros em cinco por
cento. Você pode baixar a carga porque esses aí não pagam imposto e aí todo
mundo ia comprar carro mais barato”
Essa fala do presidente da Jac Motors do Brasil, Sérgio Habib,
mostra a problemática brasileira da questão das pessoas com deficiência e como
a sociedade vê as várias questões que abordam essa temática. Nesse blog mesmo,
trouxe uma verdade que assola a Europa em abortos de crianças que “podem”
nascer com Síndrome de Down. Aí podemos lançar a questão: qual o limite da deficiência?
Pois, a “humanidade perfeita” tem um viés de eliminação daquilo que chamamos de
eugenia. Todos que estudam história – seriamente – sabe que a teoria da eugenia
já foi uma ciência, hoje – pelo menos na teoria – esta classificada como pseudociência.
Quando Habib diz que “o governo tem que acabar com o deficiente físico”, ele é refém
de uma coisa maior que deve ser classificado de discurso dizendo que “deficientes
não são uteis”.
Ora, duas questões devem estar claras
antes de entrarmos em Foucault e Deleuze: o que seria utilidade e o que seria deficiência?
Primeiro, utilidade tem a ver com aquilo que é útil em uma comunidade ou, num
modo geral, aquilo que é útil dentro de uma sociedade em um todo. Ou seja, uma
pessoa com deficiência só será útil em uma sociedade quando, ou sofre uma reabilitação
dentro de um padrão médico, ou quando participa de forma passiva a tutoração de
suas escolhas. Exemplo é que quando olhamos todos os serviços destinados para
as pessoas com deficiência, há um sentimento de “fazer favor” as pessoas com deficiência.
Assim, a utilidade do corpo “diferente” tem o preço de se tornar invisíveis, se
tornar algo secundário para os “atores” sociais terem como atuar dentro de uma
sociedade.
Agora a deficiência é uma outra problemática,
porque tem a ver com as origens do termo dentro da nossa cultura latina (que está
no meu livro de 2015). Deficiência tem duas origens, uma é grega e tem a ver
com “síndrome” (conjunto de sintomas) tem sua raiz em “syndromos” que significa
“o que corre junto”. O termo se forma por “syn” (junto) e “dromos” (corrida). Ora,
mesmo que estava ligada indiretamente com a deficiência por causa das classificações
– como a Síndrome de Down – a ideia de sintomas tem a ver com a questão de
imobilidade que caracteriza uma deficiência. Já a deficiência tem a ver com o
termo latino “deficiens” é uma declinação do verbo “deficiere”. Esse verbo significa
“desertar”, “revoltar-se” ou “falhar”. A raiz “de” quer dizer fora, e “facere”
quer dizer “fazer” ou “realizar”. Assim sendo, o termo deficiência está
relacionado a ausência ou disfunção de uma estrutura psíquica, fisiológica ou anatômica.
A questão seria: qual o conceito de deficiência?
ora, podemos dizer que são pessoas que apresentam algumas limitações dentro da
sua capacidade (daí o nome capacitismo) de realizar algumas atividades
cotidianas devido a diferenças físicas, sensoriais, intelectuais ou
psicossociais. Em um modelo médico, historicamente, esse modelo de deficiência enfatizava
as limitações individuais e considerava a deficiência como uma condição patológica.
Nesse modelo, o foco estava na “cura” ou na minimização dos sintomas. Já no
modelo social de deficiência, mais recentemente, se reconhece que as barreiras
sociais, atitudinais e ambientais desempenham um papel fundamental na
experiencia das pessoas com deficiência.
Agora temos que entender quais os
modos de discursos que se pode dizer, levaram Habib dizer para o “governo
acabar com os deficientes físicos” para baratear o carro. E não, não tem a ver
com o capitalismo ou a “metafisica da esquerda” chamada, neoliberalismo. Tem a
ver o que Foucault chamou de governamentalidade e isso tem a ver com relações de
poder e como as instituições moldam os indivíduos. Podemos dizer que, a sua noção
de “governamentalidade” envolve uma análise das práticas pelas quais o poder é
exercido sobre os sujeitos. Ora, Habib como empresário (que, provavelmente, não
estudou administração) é escravo do sistema onde a instituição faz um discurso
(através da nossa cultura medievalista positivista), que pessoas com deficiência
tem o direito, no máximo, em participar do Teleton. Uma mentalidade que nós devêssemos
ser tutelados e devem submeter aos membros sociais “uteis”. Ora, a ideia de Foucault
era incluir gestão das populações, a regulação dos corpos e a normalização dos
corpos e comportamentos.
No contexto da deficiência, poderíamos
dizer ou considerar como políticas públicas, as instituições de saúde e as práticas
de inclusão ou exclusão podem afetar as pessoas com deficiência. Foucault nos
convida a questionar algumas dessas políticas como manifestações do poder, como
acontecia um tempo atras quando pedíamos tratamento nos indicavam a AACD como referência.
Como se a instituição “governamentalizasse” uma maneira de pensar medicalista
onde só ele poderia nos “curar e dizer o que seria uma deficiência. e isso pode
moldar as vidas das pessoas com deficiência capacitadas.
Já Deleuze propõe uma filosofia que
valoriza a diferença e a multiplicidade, pois, ele rejeitou que houvesse uma
identidade fixa e enfatizou a singularidade de cada sujeito. Assim, poderemos
trazer no modo do contexto da deficiência, como uma aplicação a filosofia da diferença
para questionar as categorizações tradições. Deleuze nos lembra que não devemos
reduzir as pessoas com deficiência em uma única definição, como seria logica a
capacidade de ver que cada pessoa com deficiência teria uma característica. Ou seja,
cada indivíduo teria sua própria singularidade e experiencia.
Ao analisar a frase de Habib, nem tem
sentido você dizer que “o governo deveria acabar com o deficiente físico”,
porque cada deficiência tem cada caracterização. Daí, qual “deficiente físico”
tem que acabar? Todos ou só aqueles que compram carros?
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