segunda-feira, março 25, 2024

1883 - sangue e América




 Povos livres, lembrai-vos desta máxima: A liberdade pode ser conquistada, mas nunca recuperada.

Jean-Jacques Rousseau

Com toda certeza, os povos europeus que vieram para a América - seja qualquer ponto do continente americano - procurando liberdade das guerras e batalhas que tinham em todo momento. Diferente do Brasil - que foi uma nação de extração e não uma colônia - os Estados Unidos foram colonizados por famílias irlandesas, escocesas que fugiram de seus países e da dominação inglesa. É depois disso que acontece o seriado 1883 na plataforma de streams Paramont Pictures. Alias, o seriado aconteceu logo após a guerra civil americana - por causa da abolição da escravatura - onde veteranos de guerra tinham que levar uma diligência de carruagem  para Oregon de alemães. O seriado é sobre a existência de seres humanos de lado opostos, mas que existem no mundo como seres que sofrem, pensam e podem sentir sua existência. 

Filósofos não afirmam nada e logo perguntam <e se?>, para sobrepor aquilo que estão mostrando. Ao que parece, a cerne do problema da narrativa se passa no convívio do diferente, além claro, da questão de um mundo plural e moral. Os bandidos eram mortos por causa dos colonos, porém, muitos se rebelaram e foram mortos por causa que iam em direções diferentes. Ou seja, o ser humano na ignorância é infantilizado porque não podem fazer escolhas, os alemães não sabiam fazer escolhas porque tinham aqueles para dizer que aquilo não pode ou pode. Isso é mais do que lógico. povos com mais liberdade tendem a tomar as decisões muito mais tranquilamente. Elza - filha de um ex-capitão e de uma dona de casa - sempre teve essa liberdade e sempre mostrou respeito pelos pais e mais velhos. 

A questão não é a série em si - que veio de uma outra chamada  YellowStone - mas, o que seria a liberdade? Somos libertos realmente?  Com a promessa da “terra da liberdade” muitas pessoas desbravaram as américas, digamos assim, para encontrar ouro e riquezas e essas riquezas eram a própria liberdade. Aqui no Brasil, foi colonizado por membros da nobreza que não eram sucedidos em seus territórios. A urbanização que vimos no século dezenove, era uma urbanização graças a revolução industrial que aconteceu no século dezoito. Antes disso, a Europa - na sua essência - era ainda feudal em muitos lugares e com a guerra, a pobreza era extrema. Poderemos ver isso em Victor Hugo com o livro Os Miseráveis (que vou fazer um texto sobre). Haviam favelas em Dublin, e se recuarmos muito tempo atrás, tinham favelas até mesmo na Atena clássica. Parece que as classes - que foi Adam Smith que começou a falar - existiam muito antes do capitalismo e continua existindo. 

Nem sempre as pessoas podem refletir sobre a liberdade, trabalham toda a semana e nos finais de semana tendem a cair no divertimento.  A meu ver - diante do que eu vi na vida - as pessoas tem medo de ficar consigo mesmo e descobrir algo dentro de si que não vai aguentar, e tem uma outra coisa, as pessoas não conseguem ficar sozinhas. O grande mal do nosso tempo é, sem dúvida nenhuma, a solidão. Por que as pessoas se sentem sozinhas? Há no pensamento socrático - depois adotado por outros filósofos - que deveríamos, ates de tudo, conhecer a nós mesmos. É, inclusive (para quem estuda um pensamento mais metafísico místico), um pensamento de conhecer nossa origem divina. Conhecer os deuses e o universo tem a ver com nossa origem divina (alma/espírito) e nossa origem biológica (primata/mamífera). Ora, mesmo que biologicamente, poderíamos dizer que somos animais gregários (aceitamos clãs), não tem nenhuma base lógica, temos que seguir um Estado ao ponto de saber que eles podem nos ferrar, mas, temos que aceitar que eles ditem o que deveríamos fazer. 

Rothbard - grande defensor das ideias libertárias - disse que quem libertou os Estados Unidos da Gran Bretanha foram os libertários, de onde vem a ideia que a liberdade era a essência da América, mas, os conservadores tomaram para si o governo. Exércitos foram criados. Instituições de regulações. Todas as coisas que os norte-americanos (favoráveis a liberdade) queriam abolir.  Resultado? Em vários filmes e seriados sobre o Oeste americano, poderemos ver e refletir sobre a ideia o que aconteceu. Ou melhor, a liberdade tende a fazer as pessoas obedecerem certos conceitos morais porque elas acreditam que aquilo é certo, não achar que devemos doutrinar as pessoas a seguir aquilo que elas não querem seguir. Do mesmo modo poderemos ver no próprio seriado - que eu já expus antes - onde a liberdade não teve nada a ver em desrespeitar os mais velhos.


terça-feira, março 19, 2024

Webcomunistas não sabem o que ceticismo filosófico




Os grandes intelectuais são céticos.

Friedrich Nietzsch


Me parece que muitos webcomunistas não aprenderam que sem o ceticismo - que começou com Pirro de Élis - a filosofia não tem nenhum sentido. Desde da sua origem, já que Tales indagava a origem das coisas através dos elementos, houve um ceticismo diante da explicação homérica. Para Tales, não bastaria dizer que todas as coisas vieram do nada e que do nada veio o Caos (um abismo infinito), onde Titãs, deuses e tudo veio, houve um momento de ceticismo. Talvez, vendo insetos saírem das águas e vendo animais (como os anfíbios), concluiu que tudo veio das águas e que a água é originária de tudo. indagação sobre a origem das coisas e questionamento sobre a questão do discurso alheio. Ou seja, a filosofia como instrumento que questiona a realidade, como ficou bem claro, quando Platão escreveu sobre o teorema da Caverna. 

O ceticismo foi criado por Pirro de Élis depois da morte de Platão, mas poderia ver um tipo de ceticismo platônico já em alguns diálogos. A dúvida socrática põe em questão que nem todo mundo sabe, verdadeiramente, aquilo que diz saber. Eu não posso escrever sobre certas doenças porque não tenho conhecimento médico clínico, eu assumi minha condição de ignorância dessa matéria. Assim como é muito estranho que quem não estudou filosofia - se denominar como marxista é uma vergonha para a memória de Marx - tenha dito (como o Ian Neves que é um historiador e não um filósofo) que alunos de filosofia são chatos. Pedro Ivo do canal @ateuinforma foi um pouco mais que Ian, disse que a filosofia não indaga e que o ceticismo não faz parte da filosofia. Ora, se o ceticismo não é uma matéria da filosofia, o que poderíamos chamar o método de Descartes em tempos modernos? 

Caímos na nova modalidade que a internet criou: o achismo. O achismo (que é uma gíria) tem a ver com o modo subjetivo que as pessoas colocam um assunto importante sem embasamento, ou seja, poderíamos trocar o modo de achismo com opinião (que Platão  chamava de doxa). Ian Neves não sabe que alunos de filosofia (aliás, filósofos são chatos) são chatos porque devem ser chatos por causa da indagação e por causa da natureza cética da filosofia. Embora ache - coisa que nem o Henry Bugalho disse - que esse modo de ficar dizendo que isso não é filosofia por causa que não citei a página 18, parágrafo 5 da Crítica da Razão Pura de Kant, um exagero uspiano que sabemos que o modo de fazer filosofia é uspiano. A 80 anos a USP (Universidade de São Paulo), criou o departamento de filosofia e o francês que ajudou a realizar isso disse - como se não tivéssemos filósofos antes - que se deveria estudar os clássicos para assim, produzir filosofia. Resultado? Pedro Ivo dizendo que os filósofos de hoje são autoajuda, filósofos são sofistas e Ian Neves dizendo que aluno de filosofia é chato. Detalhe: Ian Neves (historiador) falar de Kant é filosofia, Karnal falar do mesmo assunto é autoajuda. Arrepiou os pelos do loló. ]




segunda-feira, março 18, 2024

Lugar de deficiente é na AACD?





<<Preconceito é opinião sem conhecimento>>

(Voltaire, Dicionário filosófico (1764))



Voltaire enfrentou vários desafios sobre o preconceito defendendo o caso Callas - e muitos outros - e sabia que na maioria das vezes, muitas acusações eram de cunho preconceituoso e de interesses escusos. Dentro da história humana, vimos muitas crenças e muitos relatos de acusações feitas por pessoas por preconceito de desconhecer aquele povo, aquela condição ou aquele lugar. Até o século dezenove, tínhamos os “circos dos horrores” que pessoas com síndromes, com anomalias genéticas e deficiências eram mostradas como se fossem monstros. Herança romana. Diz a tradição, que a mãe do imperador Claudius - que tinha paralisia cerebral - o chamava de monstro, mas, mesmo assim, foi um dos melhores generais e um imperador forte e destemido. Talvez, a ideia de sofrimento de pessoas com deficiência seja propagado pelo ICAR (Igreja Católica Apostólica Romana), por causa da ideia da caridade demonstrada nos evangelhos. 

A questão teve seu cume  na Alemanha nazista onde houve um decreto que mataria milheres de pessoas com deficiência, porque Hitler dizia (dizem que assinou chorando) que “eram sofredores eternos”. Hoje a coisa não melhorou muito, porque há leis que convenceram mães pelo terror e um discurso medicalista (positivista-utilitário), que uma pessoas com certas síndromes seriam criaturas sofredoras e que não podem nascer. Na verdade, o Estado estaria se eximindo de sua responsabilidade de deixar cidades e o ambiente mais acessível. A eugenia pós-nazismo se transforma em bem-estar e um mundo mais perfeito e feliz, só que tudo não passa de retórica para conseguir convencer uma parcela das mulheres que são livres para fazerem o que quiserem. Será mesmo? Liberdade de não ter um filho que só conta com a probabilidade de nascer com alguma deficiência?

Prefiro pensar que o preconceito é uma opinião sem nenhum embasamento que tem muito de senso comum, não vem de cima para baixo como diz Foucault, e sim, de baixo para cima. A deficiência tem uma coisa pior: a questão da deficiência tem a ver com a utilidade, a produção enquanto ser humano útil. Dai dava para irmos ao assunto do texto, pois, tem a ideia de acomodação e uma “pitada” de pirraça por parte dos universitários. Porque desde que vi um professor fã da Joelma (oi?) dançando no meio de uma escola músicas sem sentido nenhum, pude ver que o conhecimento não é a porta de pessoas mais críticas. Crítica que estamos falando não é “falar mal”, mas, no sentido filosófico em fazer uma análise muito mais profunda do que estou gostando ou do que nos impõe como gosto. A maioria acaba se tornando mais um na multidão. 

Do mesmo modo, um professor acusar um menino com Transtorno do Espectro Autista (TEA) de homofobia e que a escola - nem a prefeitura de Ibaté - não colocar professores auxiliares para ajudar o menino (e outros), nos dá margem a análise. Como o professor fã de Joelma, o professor acusador não tem um senso crítico de achar que um menino de 8 anos de idade, nem tem discernimento de saber o que é homofobia. Será ele um educador? Será que temos educadores que têm um senso crítico? Não. Mesmo com seu conhecimento, é mais um na multidão. 

E se você ouvisse um comentário do tipo em um vídeo: “deficiente deveria se inscrever na AACD”? Poderia pensar: “ora, é só mais uma piada de um jovem ignorante”, mas há por trás dessa piada uma forte tendência capacitista. Lugar de pessoas com deficiência não é em uma universidade, é em institutos e entidades beneficentes como a Associação a Assistência à Criança Deficiente (AACD). A meu ver, essa nova geração não sabe expandir a discussão porque é movido pela emoção - como todo jovem - e porque foram criados a ler as coisas ao pé-da-letra (educação evangélica). Uns falam em um “empobrecimento da linguagem”, outros dizem que com o avanço de certas tecnologias (visuais) as pessoas só querem ver a imagem e não estudam, não lêem e nem fazem o esforço de entenderem o vídeo que estão vendo.


sexta-feira, março 15, 2024

ANCAP medievalista e iluminista conservador

 





“Não há nada de errado com aqueles que não gostam de política, simplesmente serão governados por aqueles que gostam.”

(Platão)



Platão tem toda razão. Quem estudou a história da filosofia sabe que Platão era de uma família aristocrática de Atenas (remontando a monarquia ateniense) e, como dizem hoje, teria “lugar de fala” nesta discussão. Confesso que não gosto muito de escrever sobre política, me dá um “bode” (ou como os jovens, um “bad”) porque as pessoas sempre ficam discutindo política partidária. Eu gosto de ir muito além dessa conjuntura pobre de direita e esquerda, pois, Aristóteles nos classificou como animais politicos (zoo politikon) por causa da nossa socialização e da nossa capacidade de fazer (imaginar) fronteiras que não existem. Simbolizar essas fronteiras. Classificar períodos históricos . E ainda, temos capacidade de inventar lutas por causa dessas abstrações. 

Vendo o debate entre Adrilles George e Paulo Kogos - dois bufões alá Olavo de Carvalho - centralizam coisas que sempre eu disse: brasileiro adora um “louco dançando”. Essa história que somos a favor da família, pátria etc., é “arrotar” falsas virtudes que ninguém tem. Olavo era conservador, teve duas mulheres e mudou de religião diversas vezes.  Bolsonaro se diz conservador, esta na terceira esposa. Fora os evangélicos, que se dizem conservadores, não sabem que as liberdades começaram exatamente, por causa da reforma protestante (que tirou o poder da igreja católica). Liberdade…guardem esse nome. 

Paulo Kogos é um incógnita dentro do movimento anarcocapitalismo, porque defende pautas reacionárias e a manutenção do poder. Fora - como a grande maioria esmagadora - confunde ANCAP com libertarianismo que transforma o movimento em caricatura. Como dizem, um ANCAP pode ser um libertários, mas, um libertários não pode ser um ANCAP, pelo simples fato do ANCAP ir muito mais na economia do que na ética, porque a ética tem mais a ver com a definição libertária do PNA (Pacto de Não Agressão). Posso me defender de ataques, mas nunca atacar. O autismo de Kogos - sim, ele tem o Espectro autista e a igreja católica é o hiperfoco dele - não deixa ele sair do campo religioso e pensar que poderíamos muito bem criticar a ICAR e não deixar de ser dela. Eu, por exemplo, mesmo acreditando no espiritismo, tenho várias críticas dentro da doutrina e não faço proselitismo. 

Voltando ao PNA, a questão do Kogos defender pautas armadas dentro do exército - como golpes de estado entre outras coisas - mostra como ele não entendeu o PNA, ou até mesmo, ele seja só ANCAP. A questão é: será que só é uma questão de visibilidade para suas redes sociais? Porque quando ele fala sério - sem essas palhaçadas - Kogos até sabe bastante dentro do que se propôs saber. Mas, como um bufão de rede social, sempre se coloca na intelectualidade rasa. Sendo um seguidor ANCAP deveria saber que nenhum governo é digno de confiança e o estado como detector das forças armadas, forças governamentais e pode forçar você a fazer, sem nenhum problema, coibir as críticas. Sabemos que o Lula quer dizer que quer mais pessoas críticas do que bajuladoras, mentira. Do mesmo modo vi isso no Bolsonaro, daí abrimos um parênteses. 

Me parece que nossa cultura gosta de bajuladores muito mais do que outras, porque se viciou a questão de se bajular para conseguir qualquer coisa (a cultura da vantagem). A vantagem surge como uma filosofia do capitalismo dos anos 1920, que por sermos atrasados, se começa nos anos da ditadura militar e o lema “ame-o ou deixe-o” não sai da cabeça do brasileiro como um eterno mundo retrô. Tem a ver com tendências, de repente, nazifascistas? A meu ver, o nazismo foi uma “anomalia” dentro da questão política (dentro da filosofia, por abrigar somente pessoas “ressentidos” e que criaram algo maléfico e que não levou a Alemanha a nada (destruição, dominação e atraso).  Posto isso, é meio exagerada a esquerda - a brasileira, principalmente - ter associado tudo que não sintoniza com um engajamento ideológico (principalmente deles) com “nazismo”. O fascismo é uma tirania moderna dos imperadores romanos - que era realmente a ideia de Mussolini - que queriam dominar o que seria o império. Só que não faz sentido nenhum dizer liberalismo-fascista ou dizer que ANCAPs são fascistas. De muito refletir sobre, cheguei a conclusão que é falta de engajamento e de posicionamento. Lembrando, claro, que os bolsheviks mataram os anarquistas russos e deixaram os anarquistas espanhóis na mão. 

 Já o Adrilles achar que é um iluminista (e conservador, de alguma maneira) nos faz pensar naquela ideia que “o brasileiro não sabe discutir politica”. E não sabe mesmo, porque no fundo da matéria que gosto que é filosofia, conservadores abominavam o iluminismo. O nosso bufão poeta não sabe que, pessoas como Bolsonaro e seus generais são positivistas (Comte) ao ponto de acreditar que em todas as áreas existe um técnico e que toda a esquerda é socialista. Como os petistas, os bolsonaristas acreditam que quem não se alinha a seus discursos (cada um de doido) são comunistas. Mas, não acho que o bolsonarismo seja uma nova vertente do fascismo pós-guerra fria, mesmo que haja evidentes marcas de reacionarismo (somente do que se trata de idealizar um passado que nunca existiu). O fascismo, em estudos sérios, tendem a unir grande parte de uma nação em um fecho (daí fascista), mostrando certo culto à personalidade e desprezo daqueles que querem explorar a nação. não acontece com o bolsonarismo, pois, veneram e apoiam os EUA. 

Explicando: não sou anti-EUA, sou contra a exploração da nossa nação no que se refere a política de deixar o Brasil ser um feudo onde só se deve fornecer comida (as riquezas naturais e minerais são roubadas a todo momento). O Brasil (infelizmente) sempre vai ser uma nação explorada graças a filosofia da vantagem, do desprezo do ser humano enquanto humanidade e por não vontade política. Nossa nação está afundando  e quebrada e as pessoas brigando brigas ideológicas, brigas políticas genéricas que não vão levar a nada. Como esse debate, não vamos voltar à monarquia, vamos ser nações muito mais liberais e capitalistas (no sentido de melhorar cada vez mais a técnica), colocando o ser humano em um outro paradigma. O iluminismo vence na questão da liberdade, da fraternidade e na igualdade no sentido de equidade (adaptação daqueles que não podem ir onde os outros vão). E fica claro cada vez mais que, essa crise é uma resistência à mudança, uma resistência que já era esperada no sentido de tirar a humanidade da acomodação. 

Aqui a acomodação pode ser resumida com a frase: “é verdade”.  O que seria essa “verdade”? Essa frase acaba sendo genérica e pobre, porque duas colocações: uma de concordância e não querer contrariar o outro e polemizar, a outra é, que “verdade” nesta colocação serve como uma concordância subjetiva com aquilo que a pessoa acredita. Temos uma cultura que universaliza as coisas porque é mais cômodo, muito mais fácil  colocar numa caixa só.


quarta-feira, março 13, 2024

Cachorrinhos podem viver, pessoas com deficiência não

 



"Quantos ataques ao meu filho vou aguentar calada?"


Gritos de desespero de uma mãe como esse, mostra que ter um filho marginalizado pela sociedade - por causa de uma deficiência - deve sentir a exclusão e o esquecimento dos outros perante seu filho. Minha mãe me criou nos anos 80, junto em uma sociedade onde não tinha nada para pessoas com deficiência. Muitos eram “largados” em hospitais ou entidades como a AACD (Associação a Assistência das Crianças Deficientes, que era defeituosa nesse tempo), porque os pais não tinham dinheiro para bancar essa luta. Minha mãe tinha que pegar muitos ônibus, muitos não davam o lugar e mesmo com meus irmãos, as pessoas não eram simpáticas com aquilo. A história dos deficientes no Brasil - existe um livro, mas como tudo que envolve deficiência não é divulgado - tendem a ser como foi na era cristã: piedade e internação, fora os mendicantes. 

As coisas não mudaram muito com medidas que só beneficiam nichos dentro do segmento das pessoas com deficiência. O que um deficiente que nem pode estudar vai trabalhar onde? Isenção de IPVA beneficia pessoas que não podem comprar uma cadeira de rodas? Quem se beneficia nessas medidas populistas que as pessoas acham grande coisa? Eu sempre defendi que se deveria ter prioridades e não ficar achando que isso aqui é um lugar superacessível ou que está tudo bem e vou pensar no meu, pois não vai ter seu, se não houver acessibilidade no Brasil inteiro. E para piorar, somos um povo reacionário por natureza cultural. Somos filhos de uma colonização medieval, uma modernização positivista-marxista, ignorantes de educação e o pior, somos uma nação pobre em cultura e em escolarização. 

Um menino de apenas 8 anos, autista  ser acusado de homofobia pelo professor podemos ver o nível da nossa escolarização universitária do nosso país, pois, se um universitário não tem uma postura de universitário, detém o conhecimento e tem comportamento como todo mundo, não merecia ser professor. Olhar um menino e não conversar com ele e dizer que aquilo que disse não pode, não poderia ser uma atitude de um docente preparado e estudado. A questão não é “mimar” o menino, eu trato  todo mundo igual e não acho que tem que diferenciar, mas, há formas de se falar com crianças autistas que devem ser respeitadas. Ainda, segundo o blog Vencer Limite (do jornalista Luiz Alexandre Souza Ventura), há ainda determinações da justiça que a prefeitura de Ibaté (interior de São Paulo)  disponibiliza professores auxiliares para alunos com deficiência e aprendizado diferenciado. 

A mãe - como outras mães - Samara Vizzotto (37), uma mulher negra que trabalha como funcionária da faxina não tem nem acesso ao boletim de ocorrência do professor (um absurdo) ainda tem medo de perder o emprego por causa da luta pelo direito do seu filho. Quantas mães que conheço tiveram de “puxar o saco” por causa do simples direito do seu filho? Não devemos bajular, porque com a bajulação criamos uma cultura da bajulação e agora nossa cultura foi impregnada com isso. E o pensamento é simples: para que vou me prestar a contrariar os “poderosos” que podem tirar o pouco que meu filho tem. 

Por isso, há algum tempo atrás, escrevi um dos últimos artigos no Prensa, onde disse que cachorrinhos tem muito mais direitos e podem passear no shopping do que seres humanos com deficiência. Quando vou com minha noiva no shopping, somos atropelados, as pessoas não tem noção de banheiro para cadeirante, as pessoas passar de repente na frente da cadeira motorizada e quando minha noiva esta saindo do banheiro, as pessoas passam e nem querem saber. Não respeitam ninguém e nem nada. Mas, no exterior, formas eugênicas são impostas para abordar crianças com deficiência. 

Ainda é um longo caminho.


sexta-feira, março 08, 2024

RESPONDENDO HUSSERL

 




“Como pode a experiência como consciência dar ou contatar um objeto?” 



Alguns podem dizer que é muita ambição responder Edmund Husserl (1858-1938) por causa da sua grandeza filosófica, outros podem alegar que ainda não esteja preparado. A questão é: se não estamos preparados em responder uma questão proposta por Husserl, por exemplo, quando estaremos preparados? Mas, antes de responder o filósofo devo esclarecer em qual circunstância a fenomenologia entrou no meu repertório filosófico, graças a um colega de grupo que me indicou essa matéria. Estávamos discutindo a evolução e as morfologias que a evolução deixam em cada animal, é dado momento, coloquei que a barata é parente proxima do cupim e que esses evoluíram para seres sociais e a barata evoluiu para seres solitários (que poderemos indagar graças a os esgotos e os ninhos que elas possam ter). Em dado momento, meu amigo disse que deveria ler fenomenologia e dai tento ler. Estava lendo o livro (em PDF) Fenomenologia de David R. Cerbone e ali estava essa pergunta, que segundo ele, Husserl estava fazendo no Ideias Fenomenológicas. 

Ter uma consciência é perceber o mundo e as coisas, se existem e podemos percebê-las, então, podemos até sentir que elas existem. Na verdade, até onde eu li - cheguei a ler Meditações Cartesianas e confesso não ter entendido muito bem - Husserl queria voltar o “cogito” cartesiano da percepção diante da consciência de si mesmo. Mas há uma coisa interessante: a fenomenologia, a princípio, não naturaliza nenhuma existência. Se estou vendo uma garrafa de água, ela existe seguindo o critério de minha própria percepção. Eu sei - porque aprendi - que a garrafa existe e dentro dela há água.  E o interessante é que é um instrumento de carregar a água e ela se molda com a garrafa. Alguns podem alegar: “ah, mas a física sabe o composto da água e da garrafa de aluminio”. Sim, certamente. A questão é a consciência levada à existência de algo ou alguém, porque senão poderíamos dizer que um composto de aço e ferro (meu pai foi metalúrgico) carrega uma molécula de hidrogênio e  duas de oxigênio. 

Por que?  A fenomenologia não tem como base o naturalismo científico. Talvez, meu amigo disse para eu ler fenomenologia por causa da não naturalização do fenômeno da existência. A barata existe porque hoje é uma barata, assim como o cupim pode existir em correlação com a realidade. O fato deles terem um animal em comum - talvez, um crustáceo - não impede de serem animais únicos e existirem por conta própria, que poderíamos colocar com a famosa frase de Sartre, parafraseando Heidegger, que a existência precede a essência, pois as coisas existem por elas mesmas e não podem existirem pelas as outras. Talvez, o “eu penso, logo sou” cartesiano, se deve disso: eu sou o ser que tem a consciência de perceber outro objeto e duvidar dele tendo certeza daquilo que sou, porque não posso existir pelo outro. 

Quando eu era mais novo, formulei uma frase que quando coloquei nos grupos da época, gerou polêmica: a consciência é a priori do inconsciente. Por muito tempo, eu pensei sobre a consciência como uma percepção do mundo e as vivências que vamos construindo dentro da realidade concreta, como enxergar um objeto e projetar sentimentos dentro desse objeto. As ruins vão para o inconsciente, as boas vão para as lembranças. Por isso lembramos com saudade coisas que marcam nossas vidas e outras, como algo que traumatizam, são esquecidas. Talvez, o outro como objeto ou como ser, deve ser apenas o outro que interage com a realidade. E as imagens virtuais? Os bonecos que imitam as animações? Isso já era uma pauta trazida por Aristóteles. 

O que deveríamos pensar em um boneco de um personagem é uma materialização desse personagem. Meu irmão teve um boneco do Rambo, o boneco era uma cópia do personagem porque havia um filme (com a personificação do personagem por Sylvester Stallone) e a animação (que não tinha muito a ver com o filme, coisa de anos 80). Hoje, ao invés de falar que um bloco de mármore pode virar uma estátua, poderia dizer que uma animação pode virar um boneco (ainda mais hoje com as impressoras 3D). Diríamos que a animação é uma virtualização do personagem que saiu da mente do autor (ou desenhista), que pode ou não, ser materializado dentro de algum material e assim, interagir com a realidade. Mas, e quando desligamos a TV ou a animação acaba?

O personagem não existe. O Tom - mesmo tendo referência de um gato consciente - não existe enquanto ser, não existe enquanto ser autônomo. Então, o objeto não existe por nos dar uma imagem imaginativa dentro de uma história de imagem (figura) e som (falas). Um objeto só é um objeto enquanto podemos descrevê-lo  e dar (talvez) um nome daquilo que existe. 


quarta-feira, março 06, 2024

O Direito ao Voto Nulo

 







Gosto de discutir política nos grupos - embora, a maioria dos posts são de provocação - e um dos posts que postei mostra uma foto do Lula e outra do Bolsonaro dizendo que os dois são um lixo. Embaixo está: “bolsonaristas e petistas são todos iguais”. Um dos participantes escreveu:


<<<lógico! Qual o seus políticos que vc acha que é o correto e vamos conversar. Ciro? Kkkk qual?

Bolsonaro incomparável ao um corruptos condenado como Lula. Vc é pior que um petista acéfalo.

Sabe nem o que diz.

A política brasileira só existe dois lados, esquerda comunista corrupto ou direita..

Maioria que não se intitula direita ou esquerda, mas se uniram a esquerda pelas vantagens que o pt lava as mãos de quem fica ao seus lados.

O STF governando o Brasil com tirania e os que não são esquerda ou direita totalmente calado ..

Hipocrisia.>>>


O que é política? O termo veio de politikon (cidadão), onde eram os preocupados com a polis, aqueles que discutiam os problemas. Há uma correlação bastante pertinente: demos não são “o povo” e sim, bairros que eram separados dessas polis e esses bairros que ditavam as solução desses problemas. Por isso mesmo o filósofo Aristóteles disse que somos animais políticos (to zoo politikon) pois, o “político” que ele está dizendo na frase tem a ver com o modo social que o cidadão tem que sugerir e encontrar soluções sobre a coletividade. O ato político transcende o ato partidário, porque tem a ver como lhe damos na sociedade e no qual lado estamos. Por isso eu não participo de manifestações sobre políticas em prol pessoas com deficiência, porque acabam sendo um ato partidário político e não uma cobrança de direito dos PCDs. Ou seja, a maioria dos deficientes acabam se tornando massa de manobra de partidos de esquerda, assim alguns, travestidos de nova direita, também acabam como massa de manobra de políticos que se dizem da direita e se dizem liberais. 

A análise do caro colega acaba sendo rasa por muitas razões. Só para começar: quem disse que o Bolsonaro é honesto? Será que poderemos colocar pessoas estranhas no patamar de pessoas que podemos atestar honestidade? Se formos bastante rigorosos, podemos dizer que um político de 28 anos de casa, não é um político novo ou sem corrupção.  E realmente, o grande problema dessa discussão toda é o bolsonarismo e o petismo como forma de discussão rasa política que não avança em nada, como se só existisse a direita bolsonarista assim como, existe só a esquerda petista. Como demonstrei acima, a política é muito além.


terça-feira, março 05, 2024

Epicuro tem razão

 

 

"Eu nunca quis agradar as multidões, pois aquilo que eu sei elas não aprovam. E aquilo que elas aprovam eu não sei!"

Epicuro

Concordo com Epicuro, eu nunca quis agradar ninguém por ter um espírito rebelde e não gostar de agradar as pessoas. Acho gostoso dizer um “não”. Acho que quando dizemos “não” para a grande maioria, colocamos um limite na questão social da individualização. Admiro quem tem essa coragem e nem escolhe lados, pois o lado transforma em uma luta legítima em mero discurso ideológico.  Um “não” bem dado é uma revolução da “velha ordem”, quando todas as forças são canalizadas dentro de um propósito: mudança. Revolta, é uma irracionalidade canalizada só para a destruição sem construir nada de volta que possa ajudar o crescimento da humanidade. 

A Revolução tem a ver com uma transformação muito mais abrangente, que visa promover mudanças estruturais em um sistema social, político ou econômico. E tem uma questão bem mais ampla: pode envolver um grande número de pessoas e geralmente se estende por um certo tempo que significa essa mudança. O objetivo dessa revolução sempre foi a criação de uma ordem social, substituindo a antiga.  Ou melhor, a “velha ordem”, onde os que se interessam por ela e ganham com isso, sempre vão dizer que outras ideias não são filosofia, que outras ideologias são utópicas e as pessoas são iludidas por causa de discursos que o iludem. Talvez, essa infantilização tenha causado uma alienação muito mais porque ela tem a ver em olhar uma realidade que, talvez, nem exista. 

Já a revolta é uma transformação bem mais específica, pois se concentra em uma questão ou problema específico e busca uma mudança mais limitada. Também seria um movimento momentâneo que tem curta duração, geralmente de característica por explosões de violência popular. E tem um objetivo muito mais focado,pois, é um movimento que busca corrigir problemas muito mais específicos dentro de um sistema existente, sem necessariamente derrubá-lo completamente. Ou seja, se revoltar é se indignar com algo que, moralmente, não tem como se aceitar, como enganar alguém, matar alguém por coisa fútil etc. 

A questão se sobrepõem assim: o que é mais danoso para uma sociedade? Uma revolução pode colocar a sociedade em uma situação que pode levar a pior forma de conduta etica, no mais, pode causar profundas desigualdades dentro de uma sociedade. Por outro lado, quem garante que as pessoas irão ser prejudicadas? Porém, como vimos dentro da história humana, as revoluções colocaram seres humanos em um limiar das mudanças. O período moderno (e pós-moderno) colocou revolução como mudança como se períodos da história - em todo período humano - não houvesse essas mudanças. Mudar é adaptar-se a um período histórico. As mudanças assustam por vir de crises (estagnação social) e crises tem a ver com uma importância de refletir problemas importantes, momentos de reflexão. 

Um “não” pode ser muito mais revolucionário do que partir de uma pessoa revoltada, porque uma pessoa revoltada não pode olhar para esse “não” de forma abrangente. Porque ir contra a multidão, muitas vezes, é preciso. 


sexta-feira, março 01, 2024

Javier Milei é libertário?

 






O jornalista Diogo Minard escreveu no #IstoNãoéImprensa: “Javier Milei, em apoio a Israel, reciclou seu bordão: “Viva la libertad, carajo”.



Lendo “Manual para Entender Direito o Libertarianismo” de Hans-Hermann Hoppe (um dos escritores mais discutidos no meio libertário) , Sean Gabb disse na apresentação, que Hoppe apoiou Trump nas eleições de 2018. Daí na minha cabeça as coisas não fazem muito sentido quando as pessoas buscam liberdade e buscam um lado, buscam uma coisa binária como todo mundo. Me parece que todo tipo de anarquismo (seja libertário ou não), não foge da regra que liberdade natural do ser humano tem que ser preservada a todo custo, e apoiar um político (tecnicamente, um burocrata que mantém o Estado em cima da coerção do povo) não faz nenhum sentido. 

 Alguns vão dizer: “ah, mas é uma utopia e nunca o ser humano vai dar certo com a anarquia”. Mesmo que seja um pensamento hobbesiano (como disse Nozick), concordo que sem uma educação que liberta o ser humano de suas amarras ideológicas e binárias (principalmente, no ocidente) e faça ele entender que só depende de si para progredir. O progresso sempre será intelectualmente pelo conhecimento até o momento que o mundo já não é um mistério e nada te assusta porque não temos mais nada a temer. a busca de uma espiritualidade verdadeira e uma liberdade verdadeira - que não admite que os outros possam guiar sua vida. Mas, com a educação escolar na mão do Estado, eles ensinam o que querem e o que querem é escravizar mais o ser humano e coibir cada vez mais. 

Como disse uma vez, o ser humano é o unico animal que cria jaulas para se aprisionar. Não importa o quanto estude, a subjetividade humana de sempre lembrar aquilo que de mal aconteceu - raramente lembra das coisas boas - nos faz querer escolher lados e não raciocinar que escolhendo lados serão prisioneiros e aí, se deixa de lutar pela liberdade e se vai aprisionar em um espectro político. Isso é antilibertario e não importa o que digam, o que pensem, porque, a meu ver, não existe nenhum movimento libertário de verdade e sim, um bando de liberais que não querem pagar imposto. Os liberais de hoje (farialimers), sao muito mais burocratas econômicos do que vimos no liberalismo clássico, onde  liberdade era total não só no governo. Esse liberalismo o libertarianismo pegou para si (a maioria não entendeu), onde não existe uma pauta conservadora (os libertários combatem os conservadores) e nem pautas que tentam dar uma conotação moral. Se existem mulheres vendendo fotos nuas, por exemplo, não se pode censurar por causa do princípio de propriedade privada do próprio corpo. 

Na minha visão, além do que as pessoas dizem ou pensam, nem Hoppe, nem Milei (muito menos Paulo Kogos) não são libertários por tomar lados e por serem binários. Sabemos que quando éramos crianças, se alguém tomasse partido de um lado, o que foi contemplado sempre vai achar que vai poder dominar a situação e fazer coisa pior. Por isso sou a favor de quando se polarizar qualquer assunto político, religioso etc, os dois lados estejam errados automaticamente quando tem conflitos que mexem com outras pessoas. 


terça-feira, fevereiro 27, 2024

O COMUNISMO DE MARCIA TIBURI


 'É um gente muito feia, é um neocafona transbordante. Passeando pela rua, vendo aquela gente vestida de verde e amarelo, sem estilo, que não tem uma boa relação com o corpo. Diz respeito à formação das subjetividades dessas pessoas. É a gente que tem coragem de ir à Paulista a cavalo. É uma gente muito cafona, que tem um problema estético profundo, não só da aparência, e tem a ver com o conteúdo. Esse é o conteúdo dessas pessoas, terrível do ponto de vista da subjetividade. Falta sexo a eles, com certeza. Mas ali, com certeza, tem algo mais bizarro, que é muito ressentimento. Falta a eles um erotismo com a vida', disse Tiburi. (aqui)



Eu li “O Manifesto Comunista” de Marx e Engels e não me tornei comunista. Por que? Quando eu era adolescente, não tive tantas liberdades como eu gostaria, primeiro, porque eu estive em uma entidade que achava que pessoas com deficiência não podiam se virar sozinhos e eram eternas crianças. Segundo, fui lendo e estudando mais sobre e estou estudando filosofia num modo acadêmico. Não dá para olhar a revolução russa ou chinesa - até o tanque chines passando por cima do rapaz em 1989 - e dizer que as coisas vão melhorar com uma revolução, sendo que todas foram um grupo seleto de humanos que tomaram o poder. Tanto as revoluções burguesas quanto as revoluções proletárias (como muitas aspas), sempre acharam do direito de guiar as outras pessoas como “baluartes do conhecimento”. Como disse Jesus em um dos evangelhos: “cegos guiando outros cegos”. 

Platão dizia isso dizendo que haveria os teóricos das sombras e que eles chegavam perto, mas não desvendaram a natureza das sombras porque estavam iludidos como os outros. Ou seja, comunistas e muito liberais acham que a liberdade social e política só acontece em um modo econômico. Nozick no seu livro “Anarquia, Estado e Utopia” escreveu no Prefácio que “Nossa principal conclusão sobre o Estado é que um Estado mínimo, limitado às funções restritas de proteção contra a força, o roubo, a fraude, de fiscalização do cumprimento de contratos e assim por diante justifica-se; que o Estado mais amplo violará os direitos das pessoas de não serem forçadas a fazer certas coisas, e que não se justifica; e que o Estado mínimo é tanto inspirador quanto certo. Duas implicações dignas de nota são que o Estado não pode usar sua máquina coercitiva para obrigar certos cidadãos a ajudarem a outros ou para proibir atividades a pessoas que desejam realizá-las para seu próprio bem ou proteção.”. 

Assim como a entidade achava que era dona das pessoas com deficiência e suas vontades (como baluartes da deficiência e proteção), o Estado infantiliza as pessoas para alienar e dar a elas, uma proteção que muitas vezes, não cumpre porque um Estado muito amplo , é burocrático e ineficaz. Por isso, sou um anarquista libertário ao ponto de apoiar o Estado mínimo até as pessoas sejam educadas a ver o modo social como um modo voluntário  e o Estado não ser mais necessário, por isso mesmo, eu sou contra tanto a esquerda comunista (e seus derivados) como a direita conservadora (e também seus derivados). Ser anarquista libertário sempre nos é um lembrete que o grande mal humano é o Estado e seus discursos de bem-estar que começam de um modo revolucionário (sempre morrendo o mais pobre) e termina de um modo conservador (para perpetuar o governo). 

 O comunismo adora repetir uma frase de Marx do 18 Brumários - sim, fiz a “lição de casa” de estudar - diz assim: “Até agora os filósofos se preocuparam em interpretar o mundo de várias formas. O que importa é transformá-lo.”. Eu já analisei essa frase, mas Marx errou em dizer isso porque filósofo nenhum pode mudar nada e só pode entender o mundo diante da racionalidade, porque o mundo é bastante complexo para acharmos em meios simplistas, que o mundo é uma construção de conceitos e imagens. A filosofia nunca teve o compromisso de dar uma resposta pronta da realidade e sim, dará dúvidas para nos encontrar sozinhos. Marx só está analisando as sombras de forma superficial e não de uma forma mais profunda, onde há uma coisa muito além do que a economia que ele mesmo chamou de alienação. Isso não quer dizer que eu, como um filósofo, não tenha que respeitar Marx como tal. Descordar não é ignorar. 

Pois, os filósofos brasileiros da escola francesa (USP) e outros da escola marxista e positivista, insistem nesse pensamento de Marx e esquecem das tentativas revolucionárias não deram certo. A “cortina de ferro” soviética não deu certo porque comunidades humanas não vivem sozinhas e isoladas, se não entra dinheiro não circula a economia. Isso é básico. Claro, como disse lá em cima, governos começam revolucionários e terminam conservadores e no modo mais profundo, somos uma sociedade muito reacionária por ser romântica. Não, não estou no modo de amor romântico, estou falando do pensamento romântico em si mesmo. Romantizamos mães, romantizamos idosos, romantizamos ideologias políticas, romantizamos deficiências  etc., por causa das experiências subjetivas. 

A filosofa (com muitas aspas) Marcia Tiburi é uma feminista que disse ser de uma esquerda comunista ou socialista. O feminismo foi um movimento de direitos das mulheres legítimo até o momento que o movimento identitário (que se diz foucaultiano) tomou para si e transformou em um radicalismo de representação, ou seja, só as mulheres devem discutir direitos de mulheres. Até aí nenhum problema, mas me parece que a professora Tiburi  exagera nos seus conceitos. Hoje aceitamos, muito mais fácil, que Gilles Deleuze disse que um filósofo é um construtor de conceitos. Mas, eu acho que “gente feia” e “neocafonice” são conceitos genéricos. Do mesmo modo, podemos dizer do seu conceito de “fascismo-liberal” como se liberais fossem algo “demoníaco”, e no mais, a meu ver, o verdadeiro fascismo morreu com Mussolini. E quem estudou fascismo de verdade sabe que os regimes fascistas e nazistas tinham bases socialistas - claro, não marxistas - que eram contra os liberais, anarquistas (lógico) e todas outras ideologias a não ser as deles. Bem parecidos com os regimes socialistas de molde marxistas, não podemos negar. 

Não existe nem liberal-conservador como os “cristãos” adoram dizer, mas, na essência, são tradicionalistas. Ou seja, nossa cultura (seja de esquerda ou direita) é calcada dentro de um reacionarismo onde o brasileiro gosta de se apegar a sua memória afetiva. No passado era bom. No passado esta a verdade. No passado está o conhecimento