segunda-feira, dezembro 30, 2019

Por que pessoas com deficiência não podem namorar?







Amauri Nolasco Sanches Junior


Sempre quando eu vejo a pergunta do título, me vem a cabeça a pergunta clássica de todo grupo de deficientes (que chamo de guetos): “você namoraria uma pessoa com deficiência?”. Parece uma resposta óbvia, mas, tem muita coisa a ser analisada nessa pergunta. Se antigamente eramos comandados por preceitos religiosos, depois ideológicos, hoje somos comandados pelo marketing do bem. O marketing do bem sempre vai nos mostrar que a vida tem que ser mais saudável, que as pessoas devem sempre sorrir e que existe um propósito para tudo. Talvez, objetos tenham algum propósito, mas a vida é o que fazemos dela e, muitas vezes, erramos de não fazer o que queremos por causa do outro. Minha cadeira de roda tem mais propósitos do que uma pessoa que segue tendências, ou seja, se você quer um mundo melhor, você é um nada.
Voltamos a pergunta. Temos uma sociedade movida pela visão de custo e beneficio. Se você acredita que as pessoas amam seus filhos e querem o bem deles, você deve ser um idiota ou um mau-caráter. A maioria investe nos filhos para terem o retorno na velhice, quando os filhos (segundo a sociedade) deveria cuidar dos pais. E quando se tem um filho com deficiência? Será mesmo que essas pessoas pensarão igual? Afinal, os filhos são um investimento que não há um retorno cem por cento, mas, há uma tranquilidade mais tarde. Ai que está, desde muitos milênios se tem seres humanos com deficiência, mas, na antiguidade — mais ou menos, até a modernidade — eramos abandonados, mortos, desaparecíamos ou eramos trancados. Até hoje, crianças com deficiência são enterradas vivas dentro de aldeias indígenas. Claro que nem todos eram mortos, algumas pessoas com deficiência eram oráculos ou druidas, que remontam a visão mistica da deficiência dentro da sociedade. Sim, há uma visão mistica da deficiência. Essa visão, muitas vezes, atrapalha a vida das pessoas com deficiência. Muito antigamente, se considerava deficientes como pessoas misteriosas e muitas outras pessoas, tinham medo por causa desse mistério. Mesmo a ciência explicar as causas, há ainda essa mistica e o medo ancestral de nós.
Depois dessa explicação, imagina uma mulher apresentar um namorado de cadeiras de rodas para sua família. O pai, que tem a visão que o homem deve prover a casa, faz a pergunta clássica: o que ele pode oferecer para você? Ou até mesmo: que loucura é essa? Porque a sociedade tem a deficiência como um tomento para a pessoa , um sofrimento que deve ser dolorido para todos que se envolvem conosco. Mesmo que esse rapaz trabalhe, ganhe razoavelmente bem, nunca vai ser o bastante para a família da moça. Claro que há exceções. Mas a regra é essa. A luta é constante e deve ter bastante amor envolvido, porque quando começa a parecer as questões de ter filhos e ter uma casa só do casal, as coisas começam a ficar piores. Isso é quando a mulher ou o homem — dei o exemplo da mulher, porque sou homem e a maioria dos relatos são de homens — andam e tem um emprego. E quando há um casal de deficientes dentro da relação?
A questão da deficiência é a questão de todo ser humano que a sociedade não aceita como ser humano, ou por ignorância de não conviver conosco, ou por ser canalha o bastante para não perceber que é um nada. Uma pessoa que tem qualquer deficiência, é uma pessoa antes de tudo e deve ter seus direitos preservados junto com seus deveres. Por outro lado, o povo não é tão democrático como pensa os que idealizam uma democracia linda e um mundo melhor. Só dar uma casa, comida, saúde e tranquilidade, o povo vive nos piores regimes possíveis. O século vinte mostrou isso. Então, essa história que o povo ama a liberdade e é condicionado a achar que o outro ser humano não é humano, é mentira. Para uma grande maioria, pessoas com uma cadeira de rodas ou outro aparelho, são pessoas que atrapalham e tem que ser trancadas em um cantinho e só. Quem são essas pessoas que ficam no meio do caminho num shopping ou numa loja qualquer? O caso do Véio da Havan é o mesmo caso de agências de publicidade que não contratam, empresas que não se adéquam, o poder publico que não acessibiliza. Ainda, temos que provar que somos deficientes toda hora para o poder publico.
O amor entre deficientes na nossa sociedade que ainda acha que está na era vitoriana (num surto reacionário), é uma coisa bastante difícil de aceitar. Quando saia com minha noiva, por exemplo, sempre as pessoas perguntavam se eramos irmãos. Essa associação de coletivo (como deficiente namorar deficiente ou irmãos com deficiência), sempre foi formado como um gueto que frequentamos, ou o ideário que as pessoas iguais devem se relacionar. Isso um pouco é culpa das novelas idiotas da TV Globo que alimentam essa visão. Por outro lado, os deficientes alimentam esse tipo de imagem saindo em bando, ou até mesmo, participando de grupos do Facebook que só fala do tema deficiência. Eu sempre não gostei de ficar em grupos que o tema é deficiência, mesmo o porquê, deficientes acham que discussões são brigas.
A humanização da deficiência veio com a desumanização do sentimento. Se somos seres humanos, porque será que não temos sentimentos ou sexualidade? Exato. Vamos ser sincero, você acha que pessoas com deficiência são crianças eternas e não tem nenhum desejo sexual? Acho que quem acha isso são idiotas ou são canalhas o bastante de construir conceitos errados para alimentar seu próprio ego. Já vi homens com deficiência se aproveitarem dessas idiotices e se fazerem de alienados, bolinavam as moças e depois se escondiam atrás da mãe. Há canalhas em todos os lugares e eles se aproveitam dessas narrativas para se esconderem. Deficientes não são diferentes, são pessoas como qualquer ser humano e o caráter dependem dos valores que recebeu. Agora, deficientes sentem tesão, são homossexuais e fazem coisas que nem imaginam que possamos fazer, quanto mais se aceitar isso, melhor.
Na verdade, nossa sociedade tem uma imagem romântica de deficientes como seres indefesos e que não tem a menor ideia do que estão fazendo. Ainda, programas idiotas como o Teleton reforçam essa ideia de dependência de uma instituição ou uma causa que não existe, porque a inclusão são direitos humanos e devem ser cumpridos e pronto. Sendo assim, pessoas com deficiência são humanas e tem sentimentos e querem namorar, o problema que as pessoas têm medo. Costumo repetir o mestre Yoda sempre quando ame falam do medo, pois, o medo gera a raiva, a raiva gera o ódio e o ódio te leva o lado negro da força. A analogia da Força é óbvia, nosso campo vital sempre é aquilo que você é de verdade e quando você se encontra, você pode qualquer coisa. O próprio Yoda diz, ou você faz ou você não faz, não existe tentar. Por outro lado, a ideia do namoro sempre foi controversa aqui, porque ainda ficou aquela vontade de pedir o dote ainda. Ou será se o cadeirante for famoso e ter posses a família vai implicar? Como disse, tudo gira em torno do marketing do bem, o politicamente correto que escondem a canalhice alheia.
Tudo isso começa a gerar neuroses estranhas na família (principalmente, da mulher com deficiência), que acha aquilo bonitinho, porém, acham que as pessoas com deficiência não podem sofrer. Sofrer do que? O sofrimento pode ser silencioso lá no travesseiro antes de dormir, isso pode gerar um desejo de se matar, de não querer viver e assim, muitos desistem da sua vida. As neuroses são tão grandes, que acho importante inventarem personais psiquiatras para essa gente, porque chega as raias do absurdo de acharem que não transamos. Não deixar viajar. Não deixarem ficar sozinhos. Uma humanidade canalha para um mundo tão lindo.

Nenhum comentário: